Os jornais já não são o que eram

 

REPRO  VIEUX FIG

Os jornais já não são o que eram. Por exemplo, a 20 de Março de 1907. Já ninguém sabe o que aconteceu ou o que terá sido notícia a 20 de Março de 1907. E mesmo que nos lembremos, pouca importância terá se compararmos essas notícias, mesmo as letras gordas, com a extraordinária crónica em que, a dado passo, Marcel Proust escrevia: “Hélas! eis-me chegado à terceira coluna deste jornal e ainda nem sequer comecei verdadeiramente o meu artigo.”

Proust era amigo do Presidente da Companhia de Caminho de Ferro do Leste e da sua mulher, Madame Van Blarenberghe. Tinham um filho. Num daqueles gestos desabridos que excitam e emocionam as multidões, esse filho matou a própria mãe. Não pensem que foi só a multidão a rasgar camisas nos Champs Elysèes. Proust reagiu, exaltado, e escreveu uma crónica: “Os sentimentos filiais de um parricida”. Comparava esse filho de folhetim aos heróis trágicos da antiguidade. É verdade que não precisou de duas ou três páginas. Mas, se bem sei, deram-lhe a primeira página.

Sobre Manuel S. Fonseca

O meu maior medo é que a morte seja tudo às escuras sem se poder ler. Pouco interessa deixar de ser humano, desde que não deixe de ser leitor. Ler é do mais feliz que tenho. Até porque escrever é triste.
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6 respostas a Os jornais já não são o que eram

  1. havia de ser assim: os parricídios já não são. e eramos todos, inclusive os jornais, mais felizes. isto porque acredito que há uma alma grande, imensa, comum que vai padecendo de tanta dor pelas dores, também as nossas, dos outros.

    (percebi pouco e mal o texto, confesso. e o tradutor é um bandidolas.) 🙂

  2. Isto nem é bem um post, Olinda. É conversa de café, ao quarto ou quinto Ricard.

  3. nanovp diz:

    Então não são só os Americanos…a sorte foi ter um Proust como amigo…

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