Quem te amará, meu amor?

Não sei muito. Mas isto sei: o mundo já não é o que nos ensinaram, sequer o era então quando no-lo ensinaram. Não é o que planeámos. Nem é o que imaginas tu. Ou eu. Há mil correntes subterrâneas e outras tantas à flor da pele para as quais nem nome temos.

A modelar oração fúnebre de Péricles ao fim do primeiro ano da Guerra do Peloponeso que Tucídides levou para o Livro Segundo, não é sobre a nossa Cidade, ainda que estejamos a enterrar a democracia, um modo de vida, os nossos mortos. Porém, não os homenageamos, nem à sua descendência, nem à sua ascendência: há muito que a boa sorte, obter o que é mais nobre, os deixou a todos, nos deixou a nós.

A tristeza não é pelo bom tido e perdido, é pelo bem sonhado e desistido – o bom perdido é de tão poucos. Nem filhos há para arriscar as decisões de futuro, porque nem podem, de tão pobres, os filhos nascer, ou os nascidos e crescidos ficar: podem os avós envelhecer com vagar, irão morrer sós, ou na companhia dos seus pares se não foram roubados dos lares, netos não há, e os filhos estão no trabalho.

Ninguém levanta os olhos para esta Cidade nem ela é sol de alguém. Esta Cidade é a sua própria Sombra. Quem a amará?

Quando a glória e a grandeza só merecem esquecimento, e aos homens de coragem se arrumam na margem dos loucos onde falem sem se ouvir, quando a honra se negoceia, à pátria não é o valor próprio que se dá, é valor que dela se tira com louvor de outros ladrões iguais e celebração nas páginas dos jornais.

A terra inteira continua assim o túmulo de homens valorosos. Mas não há em quem quer que seja, deles, uma reminiscência não escrita, um pensamento gravado: ninguém lembra o que disseram, não tinham voz que se ouvisse, parentela ou clientela que abrisse a porta fechada, a porta pesada do silêncio. Como então fazer deles o exemplo?

Se felicidade ainda é liberdade e liberdade ainda é coragem, ser livre é estar da margem a falar sem ninguém ouvir. Nada tendo a ganhar, nada mais tendo a perder, podemos tudo sem temor, até morrer por amor.

Quando chegou a hora do combate, os grandes guerreiros cederam e salvaram-se a si mesmos, e os pobres, coitados, venderam-se-lhes por escravos, e às suas mulheres e ao futuro dos seus filhos, e na desonra encontraram a honra.

E é por isto, em suma, que digo: no que sobrou desta Cidade, a sua escura Sombra, cada homem, cada mulher, pode fazer-se senhor de si mesmo e dono dos seus actos no que decidir ser. Há mil correntes subterrâneas. E outras tantas à flor da pele.

Aqui, na História da Guerra do Peloponeso, de Tucídides, no Livro Segundo, páginas 108-114, encontrará a Glória de Atenas na oração pronunciada por Péricles.

Sobre Eugénia de Vasconcellos

Escrever também é esta dor amantíssima: os lábios encostados à boca do silêncio, auscultando, e nada, esperando dele a luz que beije. É assim, pelas palavras se morre, pelas palavras se vive.

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22 respostas a Quem te amará, meu amor?

  1. olinda de freitas diz:

    e poucos são os que falam sem se importarem se os estão a ouvir – até porque são poucos os que têm coragem de dizer que ouvem e gostam. podemos tudo – até morrer em amor.

  2. É imensa e esplendidamente Triste o seu amor à Cidade. Acredito em si: só os que nada têm a ganhar a saberão cantar,

  3. riVta diz:

    belo post Eugénia
    belo post

  4. Felippa Lobato diz:

    É a experiência colectiva que há muito escolhemos vivenciar:
    “Não sei muito. Mas isto sei: o mundo já não é o que nos ensi­na­ram, sequer o era então quando no-lo ensi­na­ram. Não é o que pla­neá­mos. Nem é o que ima­gi­nas tu. Ou eu. .”

    E é no acordar de nós mesmos que tocamos as … “mil correntes subterrâneas e outras tantas à flor da pele para as quais nem nome temos.”, para de seguida abraçar o Amor Maior. Ponte para a Unidade que “esquecida-Mente”, Somos.

  5. nanovp diz:

    E desapareceremos com a as ruínas da Cidade. Que bela “oração” Eugénia!

  6. Luis Lopes diz:

    Eu Amo qem não ganha.

  7. Mário diz:

    Quem diria que há tanta Beleza na Tristeza 🙂

    • Boa! Que bem caçado. Quem disse que havia beleza na tristeza foi o meu rico Vinicius…

      • Mário diz:

        E a tristeza, quando mata, continua bela? e se o Vinicius a tivesse visto passar em Ipanema (e porque não?) não havia Garota de Ipanema mas o Samba da Portuguesinha 🙂

        • olinda de freitas diz:

          excelente, Mário, qual fado qual quê – samba da portuguesinha.:-)

          • A beleza da juventude é sempre exuberante e encantatória para quem a vê sentado a passar e já sabe o segredo do tempo e a morte.

            Claro que a minha juventude teria gostado do sambinha. Todas as meninas teriam gostado. De uma forma ou de outra, nesses dias fomos, todas a garota de Ipanema. Merci pela gentileza.

  8. Emeel diz:

    Verdades profundamente tristes ditas de forma tão elevada e bela! Quase esquecemos a agressividade da cidade pela poética defesa do que somos. E não podemos esquecer, “ser livre é estar da mar­gem a falar sem nin­guém ouvir”. Sim, mas as palavras ficam.
    Parabéns.

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