Se te portas mal, vai haver terror, se te portas mal, tu vais sentir dor, vou ter de te dar e vais ter de levar pancadinhas de amor…

CULTURA: A CIDADE PROIBIDA – vi
AMO VOCÊS, MEU POVO

Liliane Marise é mais do que um fenómeno. Liliane Marise é também um facto. Um facto sustentado em Jeff Koons. Em Jeff Koons e no das caveiras, do bling e do formol, em Damien Hirst. Mesmo em Joana Vasconcelos. Liliane Marise é um facto fenomenal que nos sentimos autorizados a aplaudir por causa deles – para vaiar pedimos autorização a outros, ou pensa que caiu de uma nuvem, etéreo e sem passado? O problema é que só podemos aplaudir em bloco, assim como a esquerda a despeito das facadas, perdão, das diferenças internas: não se pode louvar um sem, quer se queira ou não queira, de alguma forma, louvar outro. Ou vaiar. Contra mim falo que tenho uma implicância do piorio com senhor formol, acho uma piada maluca à Joana Vasconcelos, e entendo muito bem o Jeff Koons. Isto vem a propósito de quê? Olhe, da falta que me faz uma mala. Chique.

Não é apenas Liliane Marise quem quer uma mala chique como viu lá na boutique. Nem é só ela nem são só as meninas de bem que andam na Feira de Carcavelos – o próprio Marc Jacobs considerou a loucura das imitações, no caso com a Louis Vuitton que havia revolucionado, uma homenagem, afinal criara objectos de desejo e amplificara o desejo. E a marca. Quem quer a mala chique somos nós. Todos. Mesmo os que dizemos, mala, não, filha, que não vai de viagem, que maçada, o que quer é uma carteira.

O objecto de desejo não varia assim tanto. Porque aspiramos todos, mais coisa menos coisa, ao mesmo, queremos todos, mais coisa menos coisa, o mesmo. E queremos o quê? O que nos dá poder para ser e ter. Não interessa se é um cargo público, uma empresa ou uma biblioteca, ou um guru. Quer um bom exemplo?

A coluna de Henrique Raposo, ontem, no Expresso. Sócrates quis uma mala chique. Fez mal? Não, fez bem. Uma carteira em condições, uma vuittonzinha, mesmo pequenina, a papillonzinha, passa de mãe para filha em perfeito estado de conservação ainda que tenha muito uso. Porquê? São boas. Boa pele. Trabalho bem feito, artesanal. E a estética ainda que vá de modas é suficientemente inteligente para ancorar o futuro numa base conservadora, logo, vai de modas mas não passa de moda, inventa moda. Sócrates queria uma mala chique. As tias de Cascais tinham a mala e não lha queriam dar. Ele gritou-lhes, não há melhor a quem fique! Contudo, há que compreender as tias: quem é que no seu juízo perfeito dá o que quer para si? Então que fez Sócrates? Foi à feira com a Liliane Marise. E quem nunca foi que jogue a primeira mala. Vá, carteira.

Queremos todos o melhor, todavia, criar, fazer, construir valor, exige trabalho e desenvolvimento moral. Quando chega a altura da verdade, tenha ou não tenha alça como nem parece que é falsa, lá vamos à Feira de Carcavelos: dar emprego a um estranho competente? Qualquer estranho é preterido por qualquer conhecido que pertença à mesma paisagem social, desconhecido que pertença, ou, em último caso, promova essa paisagem.

Este não é um mal português por muito que em Portugal e em Itália assuma as proporções que o índice de corrupção ilustra. Este é um mal visível nas grandes empresas europeias que se portam como as casas reais europeias – e como a máfia. O modelo é familiar e de alianças familiares. Mesmo no norte europeu, limpo e luterano, de igrejas minimalistas das paredes à prática económico-religiosa, é familiar. Só não é corrupta. Dir-me-á que não, as casas reais aprenderam o negócio com o Mónaco e viraram-se para a plebe que as salvará da guilhotina e que, como o movimento é reproduzido de cima para baixo tal como da loja para a feira, estamos salvos. Não estamos.

Basta uma gota de tinta na água: o que se passa na política, acontece nas empresas, dá-se da cultura aos media, e na vida social. Não estamos a gostar dos resultados, pois não? Azarucho, se te portas mal, vai haver terror, se te portas mal, tu vais sentir dor, vou ter de te dar e vais ter levar pancadinhas de amor.

Ai…

Sobre Eugénia de Vasconcellos

Escrever também é esta dor amantíssima: os lábios encostados à boca do silêncio, auscultando, e nada, esperando dele a luz que beije. É assim, pelas palavras se morre, pelas palavras se vive.
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11 respostas a Se te portas mal, vai haver terror, se te portas mal, tu vais sentir dor, vou ter de te dar e vais ter de levar pancadinhas de amor…

  1. riVta diz:

    A Vuitton está para o Louis como a ‘Melodyne’ para a Liliane. Não está nada mal! A Marise já é outra coisa.

  2. Tem razão, Eugénia: “Qual­quer estra­nho é pre­te­rido por qual­quer conhe­cido que per­tença à mesma pai­sa­gem social…” Mas como é que se pode negar (ou contrariar) a pulsão clãnica? É o diabo, somos sempre qualquer coisa, benfiquistas, católicos ou comunistas, de Letras ou do Técnico, do Estoril ou de Almada. E isso é como um rio…

    • Talvez o nosso clã não seja tão pequenino como pensamos e talvez o bem/bom dos outros promova o nosso melhor, não o pior. A todos os níveis. Além do que só com sangue novo se dá ar ao sangue velho e evita a degenerescência.

  3. olinda de freitas diz:

    o que vale é que Sócrates continua a ser, não o chique mas o bom, do chiqueiro – que é donde vem a dor e o terror. e viva ia a Liliane Marise que ama o seu povo! 🙂

  4. Pedro Bidarra diz:

    Uma vez tive um Porsche. Lindo, o melhor carro do mundo. Um gozo. O que me irritou foi ficar a conhecer gajos que tinham Porsches.

    • Pedro, aqui há uns tempos fui a um casamento. O sítio era lindo, mas para lá chegar… um caminho de cabras que só a cavalo. Todos os rapazes da minha geração que tinham Porsches de fim de semana – durante a semana usam aqueles bmw que parecem grandes carros funerários -, os levaram. E todas as meninas levaram os seus vestidos hippie chic de decote em v para realçar as maminhas novas.

  5. nanovp diz:

    Fartei-me de rir Eugénia, com este texto tão bem escrito e tão sério! E queremos todos mais e melhor…

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