Sou tua

TERRA DE NINGUÉM EU TE PERTENÇO

Moisés logo à nascença estava condenado
estamos todos: quem és quem serás
porque és judeu ou nasceste na avenida de roma
ou nas colmeias de odivelas ou numa catacumba
qualquer do lado errado ou certo do rio
e morrerás se não for hoje amanhã será
Moisés logo à nascença foi salvo
fomos todos: devolvidos por milagre
à esperança das nossas mães
E como Moisés levamos quarenta anos a crescer
degrau a degrau estranhos numa terra estranha
no palácio do poder até que o instinto nos levanta
a mão e para não morrer o nosso sangue matamos
e assim mesmo a nossa própria carne nos nega
Não se pode viver e ser inocente descobrimos
isso e o nome da solidão em quarenta anos de deserto
A toda a nossa descendência filhos e obra insistimos em chamá-los
Gershom: estranho numa terra estranha
promessa de canaã cidadania de leite e mel
Ou só a repetição do verdadeiro nome do pai

ó terra de ninguém, ninguém, ninguém:/ eu te pertenço, de Jorge de Sena in A Portugal

Sobre Eugénia de Vasconcellos

Escrever também é esta dor amantíssima: os lábios encostados à boca do silêncio, auscultando, e nada, esperando dele a luz que beije. É assim, pelas palavras se morre, pelas palavras se vive.
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10 respostas a Sou tua

  1. Já lhe devo ter dito umas vinte vezes, mas este Moisés merece a vigésima primeira: admiro a sua capacidade para uma poesia discursiva que, num país muito efeminadamente lírico ou manhosamente criptíco, é rara. Sena, à sua maneira mais torrencial e também Nemésio, Ruy Belo numa forma a roçar a humildade de aceitar o quotidiano em cada frase, são os maiores exemplos do século passado.
    Uma pequena nota: se não se pode viver e ser inocente, também não se vive sem alguma inocência.

  2. olinda de freitas diz:

    será só a repetição.

  3. riVta diz:

    What a great word-shake
    😀

  4. Pedro Bidarra diz:

    Faço meu o primeiro parágrafo do Manuel. E acrescento obrigado pela palavras que falam e não apenas ruídam.

    Dizia não sei quem, li num livro onde o personagem não queria morrer por achar que isto tudo era muito pouco tempo, não me lembro que livro, dizia então o personagem, queixando-se que levamos vinte anos a crescer, vinte a aprender a fazer qq coisa, e mais vinte a fazê-la, que quando finalmente somos alguém apodrecemos.
    O seu poema lembrou-me essa observação.

    • Muito obrigada, Pedro. Este deserto já tem companhia para uma conversa em volta do fogo. Sabe, estou numa fase de transição, apesar de todas as mudanças, e foram algumas, que vivi, nunca passei por uma transição. Olhar para trás e perceber que tudo faz sentido para o que está adiante. Sei que sou privilegiada: estou no deserto e sei.

  5. nanovp diz:

    Condenados a uma travessia que pode levar uma vida toda. Com o sabor por baixo da língua que insinua o verdadeiro sol que está ainda para vir, em cores que não sabemos imaginar.

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