Welcome back Arcade Fire

Os Arcade Fire já foram uma daquelas bandas feitas do culto de uma minoria – de uma “imensa minoria”, na expressão feliz que o saudoso António Sérgio (o radialista, nada de confusões com o filósofo) gostava de usar. Depois, para desgosto dos que tinham uma noção exclusivista do culto, foram-se transformando progressivamente numa banda de estádio, para entretenimento das massas. A questão é a mesma de sempre: como se faz para recuperar a identidade perdida, ou descobrir novas minorias, sem sacrificar os milhões de novos fiéis entretanto conquistados? Que me lembre, os U2, já depois de alienarem os seus seguidores iniciais à custa de muitas piscadelas de olho à grande indústria, souberam o que fazer, nessa espécie de transição por território de ninguém, e acabaram a produzir, numa incursão (que infelizmente ficou por aí) por sonoridades nunca antes experimentadas, os seus dois melhores álbuns de sempre, Achtung Baby e Zooropa. Os Arcade não lhes ficam atrás: chamam para produtor o alquimista James Murphy (o homem dos extintos LCD Soundsystem, sobre quem já aqui escrevi), entram por zonas a que até então não se tinham atrevido (música de dança, disco/funky, dub/reggae, batidas electrónicas, e por aí fora), a que insuflam o seu habitual fôlego épico, e, para se demarcaram do qualificativo de “banda de estádio” (resta saber por quanto tempo), marcaram o regresso para um armazém abandonado em Brooklin, onde só tiveram entrada algumas centenas de convidados, com a condição, a que não escaparam os próprios membros da banda, de se apresentarem de máscara. Tudo para apresentar o novíssimo Reflektor, cujo extraordinário tema-título, que em baixo vos deixo, é uma bela amostra dos novos sons da banda. Dos novos sons e, já agora, de uma nova imagem (com vídeo do bem conhecido Anton Corbijn, o homem que fotografou os Joy Division e realizou Control, o excelente filme sobre Ian Curtis), bem à medida da ambiguidade com que as bandas-que-começarem-por-ser-de-culto-e-que-depois-se-venderam-à-indústria se apresentam para manter as massas em delírio sem sacrificar os puristas que deles já desconfiavam.

Sobre Diogo Leote

Longe vão os tempos em que me divertia a virar costas a senhoras que não gostavam de Woody Allen. Mas os preconceitos de então ficaram-me. O de preferir as vozes sofridas e os gritos de raiva, ou os sons negros e abafados, ao fogo-de-artifício dos refrões fáceis. O de só admitir happy ends em situações excepcionais, quase sempre em histórias de amor em que ninguém apostaria um cêntimo. O de não procurar encontrar explicação para os desígnios insondáveis da sedução ou para tudo o que não é dito, que é quase tudo, na grande arte. E continuo com esta mania de andar atrás da tristeza. Dizem os psicólogos que isso é um privilégio dos que não a têm no seu código genético. Eu não os desminto. A verdade é que, se não embirrasse tanto com a palavra “feliz”, até a usaria para exprimir o prazer que sinto ao escrever sobre almas abandonadas ou corações destroçados. Ainda bem que escrever é triste.

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10 respostas a Welcome back Arcade Fire

  1. vgrilo diz:

    Sabia que aqui viria lêr isto mais tarde ou mais cedo. Não porque sejas previsível nos teus gostos muito pelo contrário mas porque este disco é mais um passo para a frente que esta incrível banda e produtor dão e tu não poderia deixar de aqui o vires tocar. Abraço

    • Diogo Leote diz:

      Vasco, eu tinha a certeza que estavas bem atento ao Reflektor. E quase que aposto que uma das máscaras do concerto de Brooklin era tua. Um abraço.

  2. Teresa Conceição diz:

    Que bom podermos contar com os seus regressos musicais, Diogo. Belo texto para os Arcade Fire.
    E lindo pretexto para vir aqui reencontrar o Vasco, que tem andado quase tão ausente como eu. Deu-me saudades do tempo da nossa colectiva blog-banda pelo Vasco criada, os de tão boa memória Clear Cat Pebble Eyes. O que nós nos rimos com o cartaz e a tournée internacional!
    Não resisto a lembrar o início da história, Vasco:
    http://www.etudogentemorta.com/2010/03/clear-cat-pebble-eyes/#comments

  3. nanovp diz:

    Diogo apontas um dos maiores problemas com que a música popular se depara: a dificuldade em lidar com a criação artistica de um produto que vende milhões. Ainda não ouvi bem o novo album, e não acredito em voltar atrás, mas estou aberto a que me surpreendam…

    • Bernardo, os Arcade não voltaram atràs, deram, talvez, um passo em frente. O tempo julgará se foi ou não só um artificio destinado a prolongar-lhes a vida.

  4. olinda de freitas diz:

    andava para te dizer, Diogo, e esquecia-me sempre desta sugestão de blogue em geral e do post em particular: http://mvflux.com/2013/09/11/arcade-fire-reflexoes/

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