2001: o melhor filme de todos os (meus) tempos

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 Devia ter aí uns dez anos quando, pela mão dos meus pais, vi 2001 – Odisseia no Espaço pela primeira vez. Desde aí, mesmo sem ter percebido grande coisa, passou a ser o filme da, até então, curta vida que levava. Mesmo sem ter bem a noção disso na altura, terei tido aí a primeira prova, de muitas que me chegaram depois, de que uma obra de arte não se fez para ser entendida. Mais tarde dei-me conta de que o fascínio de uma obra de arte reside precisamente aí, em não a percebermos bem, ou termos liberdade para a perceber à nossa maneira. Decorridos mais de 35 anos, o fascínio por 2001 ainda perdura. É fácil perceber porquê: porque continuo sem perceber grande coisa. É por isso que, todos os anos, tenho uma espécie de ritual, o de ver, uma vez mais, a odisseia espacial de Kubrick, para me assegurar que continuo a ser rapaz de me deixar fascinar por aquilo que não percebo. Dos tempos que já vão fazendo a minha vida, este é, seguramente, o filme que a todos atravessa sem me dar a mais ínfima noção de que a idade vai passando por mim. Se o tempo se pautasse pelo efeito que 2001 produz em mim, ainda era a mesmíssima criança quando o viu pela primeira vez. Pois é, 2001 é o meu elixir da juventude. E por falar nisso, o ano está a acabar e ainda não cumpri o meu ritual. Está na hora de o fazer, até porque desta vez, vejam lá a minha sorte, tenho um grande écran numa sala de Lisboa à minha espera. Mas antes vou rezar a todos os santos que, depois de mais este visionamento, continue sem perceber grande coisa do filme. E que perdure, claro, o fascínio pelo melhor filme de todos os (meus) tempos.

Sobre Diogo Leote

Longe vão os tempos em que me divertia a virar costas a senhoras que não gostavam de Woody Allen. Mas os preconceitos de então ficaram-me. O de preferir as vozes sofridas e os gritos de raiva, ou os sons negros e abafados, ao fogo-de-artifício dos refrões fáceis. O de só admitir happy ends em situações excepcionais, quase sempre em histórias de amor em que ninguém apostaria um cêntimo. O de não procurar encontrar explicação para os desígnios insondáveis da sedução ou para tudo o que não é dito, que é quase tudo, na grande arte. E continuo com esta mania de andar atrás da tristeza. Dizem os psicólogos que isso é um privilégio dos que não a têm no seu código genético. Eu não os desminto. A verdade é que, se não embirrasse tanto com a palavra “feliz”, até a usaria para exprimir o prazer que sinto ao escrever sobre almas abandonadas ou corações destroçados. Ainda bem que escrever é triste.

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6 respostas a 2001: o melhor filme de todos os (meus) tempos

  1. Henrique Monteiro diz:

    Eu talvez possa dizer o mesmo, mas sou prudente… 🙂

  2. Quando a minha sobrinha e o meu cunhado eram uns miúdos de bibe, ficaram comigo de férias e levei-os a ver o 2001. Foi o único dia em que, ao jantar, no restaurante, não pediram os invariáveis bitoque e mousse de chocolate…

  3. Mário diz:

    Ponho o Blade Runner na mesma onda, com a vantagem de ser mais intuitivo (e visualmente um assombro, ainda hoje tudo aquilo parece actual)

  4. Diogo Leote diz:

    Pois é, caríssimos Henrique, Rita, Manuel e Mário, vamos é ver o 2001 outra vez, para começar o ano em beleza. Um óptimo ano para todos!

  5. nanovp diz:

    Um génio meticuloso, um prodígio do cinema de ficção cientifica…

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