A porta abre-se?

A Caça ao Snark

A Caça ao Snark

“What I tell you three times is true” (The Hunting of the snark, Lewis Carrol)

Já vos disse mais do que três vezes – e se não o fiz repito-o hoje, que o futuro só vive como presente do passado. A frase é tão boa que acho que é de Wittgenstein, autor de todas as frases boas cujo autor desconhecemos. Montaigne é outra hipótese, sim! Montaigne não é lido, é só conhecido. Mas o que importa reter é que

O futuro só vive como presente do passado!

Reparem que o futuro é incerto, e sendo incerto, como tudo o que é incerto, pertence a Deus. Os fiéis são incertos – pertencem a Deus! As liturgias são claras e certas – não pertencem a Deus! A bondade e a beleza, a força e a sabedoria são incertas – pertencem a Deus. A vaidade e a cobiça, a inveja e a avareza estão por todos os cantos – são nossas e não de Dele. O homem é um ser incerto, é natural que pertença a Deus. Mas isto são divagações que podemos atribuir a São Bernardo de Claraval, um daqueles nomes que a maior parte da gente culta já ouviu mas não sabe ao certo o que fez. Ou talvez a São Banaboião, anacoreta e mártir (que nem por ser um título de Aquilino Ribeiro é menos piedoso). Porém, isto já são outros quinhentos. Interessa, isso sim, dizer que

O futuro só vive como presente do passado!

Agora que o disse três vezes, como o Bellman que ia caçar essa mistura de caracol e tubarão que faz um snark – em português intraduzível, porque caracão ou tubacol não têm nem a graça nem elegância – e, acima de tudo, a esquiva presença e rápida fuga de um snark -, volto ao tema:

Vivemos no passado, o futuro nunca chegará, escreveu Eugénia de Vasconcellos num dos seus admiráveis momentos de inspiração. A cautionary love tiny-tale, assim lhe chamou – e bem – explica porque não podemos sair do passado. Porque vivemos no passado e o futuro não chega. Porque o futuro vive como presente do passado. O futuro é a forma com que imaginamos o presente quando o presente for presente. Ao contrário, o passado é como sabemos (ou pretendemos saber com certeza) que foi o passado quando o passado foi presente.

É por isso que todos tendem para a conservação. A esquerda é conservadora quando a pobreza obriga a mudanças sociais. Ao contrário, a direita é conservadora quando o bem-estar obriga a mudanças sociais. Nem uma nem outra quer o futuro, salvo se o futuro for como eles o imaginam. Mas o futuro não é deles e só se materializará como presente de um passado esperado, sonhado, desejado ou temido.

Não, amor, não podes abrir a porta, como bem disse a Eugénia. Vives no presente, que está constantemente a transformar-se em passado e vais ter de esperar que a porta se abra, ou seja pelo momento em que o futuro se torna presente. Mas será que a porta se abre?

Como sou prudente digo talvez.

E Bom Ano para a Eugénia que merece mais e para todos os outros tristes, que não merecendo tanto como a Eugénia merecem infinitamente mais do que o futuro lhes reserva.

Amen

Sobre Henrique Monteiro

Nunca fui um sedutor, embora amasse algumas mulheres hospitaleiras. Nunca fugi de um combate, mas sempre invejei quem, ao abrir as portas de um saloon, provoca pânico entre os bandidos. Tenho nas veias sangue jacobino, mas odeio revoluções e igualdades uniformizadoras. Sou pacato e desordeiro, anarquista institucional, maestro falhado, cantor romântico e piroso a quem falta tom. Sem nunca me levar a sério - no melhor sentido da palavra, acho que apenas sou um homem bom (e barato).
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7 respostas a A porta abre-se?

  1. Mario diz:

    futuro=presente do passado e presente=futuro-passado, logo, substituindo, presente=presente do passado-passado, pelo que corta-se o passado e concluimos que presente=presente. Esta demostrada a veracidade da frase. 🙂

  2. riVta diz:

    Now!
    Now!
    Now!

    tudo o resto é falazar (e é bom falazar)

  3. Nem mais. Bom ano!

    ps: merci pelas palavras boas.

  4. Paula Santos diz:

    Mas que futuro tão enrolado num presente que é passado..;-)
    Façamos deste abraço a três o motor deste eterno questionar.

    Bom ano tristes!

  5. Manuel S. Fonseca diz:

    Bom Ano, Henrique, de portas abertas.

  6. nanovp diz:

    A porta abrir-se-á Henrique, podemos é não passar todos por ela…Bom Ano também….

    • Chaves tristes diz:

      O Amor Bate na Porta

      O amor bate na porta
      o amor bate na aorta,
      fui abrir e me constipei.
      Cardíaco e melancólico,
      o amor ronca na horta
      entre pés de laranjeira
      entre uvas meio verdes
      e desejos já maduros.

      Carlos Drummond de Andrade, in ‘Brejo das Almas’

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