A Casa Creme

"O Passado", de Asghar Farhadi

“O Passado”, de Asghar Farhadi

“O Passado” segue o exemplo sensível e meticuloso de “Uma Separação”, o filme anterior do iraniano Asghar Farhadi:: o amor é um poço sem fundo de emoções contraditórias, e os seus percalços assemelham-se à lógica de um thriller. Depois do casal de Teerão preso nas hesitações de ficar ou emigrar, o par de “O Passado” está prestes a romper-se no papel. A chuva não para e Ahmad (Ali Mosaffa) acaba de chegar a Paris para assinar o divórcio de Marie (Bérénice Bejo) após quatro anos de separação. Ela continua a viver com as filhas de um casamento anterior, numa casa arejada junto à linha de comboio, em Sevran, arredores de Paris. Mas há duas novas presenças na casa, agora pintada de creme, como se a tinta renovasse paredes e sentimentos: Samir (Tahar Rahim), um magrebino casado, dono de uma lavandaria, e o seu filho pequeno, Fouad. Lucie, a filha mais velha de Marie, acha que o romance da mãe com Samir é responsável pela tentativa de suicídio da mulher deste, agora em coma. Ahmad servirá como confessor e investigador das mentiras e enganos que levarão à verdade possível neste triângulo amoroso, marcado pela culpa e pelo ressentimento, mas também pelo carinho e o sentido familiar. “O Passado” é uma obra-prima de espantosa simplicidade, e o eco que faz dos reais problemas do quotidiano faria corar o existencialismo torpe de um Antonioni. Porque a vida sentimental não é um monólogo, mas uma dificílima polifonia.

Publicado na revista Sábado

Sobre Pedro Marta Santos

Queria mesmo era ser o Rui Costa. Ou sonâmbulo profissional. Se não escrever, desapareço – é o que me paga as contas desde 1991 (são 20 anos de carreira, o disco está a sair). Há momentos em que gosto mais de filmes do que de pessoas, o que seria trágico se não fosse cómico – mas passa-me depressa. Também gosto dos olhos da Anna Calvi. E das bifanas do Vítor. Aprecio um brinde: “À confusão dos nossos inimigos”. Não tenho nenhuns, só uma ternura infinita pelo azul das árvores e o amarelo do mar. E peço: digam-me mentiras.
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4 respostas a A Casa Creme

  1. Manuel S. Fonseca diz:

    Este já vi, Pierre. Gostei muito. Mas não tanto que ponha o Antonioni à borda do prato.

  2. Ana Rita Seabra diz:

    Gostei tanto da “Separação” que quero ver este!!!

  3. nanovp diz:

    Será amanhã…..sem falta!

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