A inacreditável história de Dick Cock

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Dick Cock tinha um problema. Quem o conhecia – a ele e ao problema – gostava de dizer, como se isso fosse uma fatalidade inescapável, que o problema nascera com ele. Ou melhor, nascera quando, com poucos dias de vida ainda, os pais o levaram ao registo e a desleixada senhora que os atendeu trocou o distinto nome de família Cook que trazia da ascendência pelo embaraçoso Cock. Quando deram pelo engano – segundo os pais, menos devido ao desleixo do que a uma tara sexual da funcionária – já era tarde: de nada lhes serviu, em sucessivas reclamações e recursos que apresentaram, alegar que eram descendentes de um herói da navegação e marinha de guerra britânica, nem mais nem menos do que o capitão James Cook, a quem deviam o honrado apelido. Enquanto puderam, os progenitores ainda se esforçaram por esconder do inocente rapazinho o significado do nome que, pelo tal lapso irremediável, tinha de trazer às costas. Mas, à medida que os anos de puberdade se aproximavam, e a maledicência se começou a insinuar nos dizeres provocatórios dos atentos e competitivos colegas de turma, o apelido truncado, não só se transformou em motivo de galhofa permanente, como passou a moldar, e de que maneira, a personalidade até então discreta e apagada de Richard. Pois, se disse Richard e não Dick, foi para que se perceba bem que uma desgraça nunca vem só. Como se não bastasse a maldição do apelido, o ilustre descendente do capitão Cook tivera o duplo azar de nascer Richard. E está-se mesmo a ver, com tanta língua afiada a acompanhá-lo nos corredores do liceu, como acaba a ser chamado quem se apresenta ao mundo como Richard Cock.  Do Richard ao Dick foi um instante. E o pior é que o pai, grande admirador do detective Dick Tracy e da ficção científica de Philip K. Dick, não só não se apercebeu do logro como até incentivou, numa primeira fase, o habitual nickname usado para quem tem Richard como nome próprio.

Chegados a este ponto, é legítimo perguntar como é que alguém ultrapassa o estigma de ser conhecido como Dick Cock. A resposta parece óbvia: que faça então juz ao nome, que faça render o nome. E já se adivinha como é que Dick Cock deu a volta à chacota de que foi vítima durante a adolescência. Se o nome o perseguia como um fantasma e ameaçava causar-lhe traumas irreparáveis, nada como passar de perseguido a perseguidor para fugir à maldição. E foi mesmo isso – perseguir a fama que precedia o seu nome – que fez mal entrou na maioridade: de acossado passou a predador, de humilhado a sedutor, de dominado a dominador. Em dois tempos, Dick Cock transformou-se no ai jesus de todas as meninas, bem ou mal comportadas, que tinham o azar ou a sorte de se cruzarem no seu caminho. Deixou de haver uma que fosse que ficasse indiferente à voracidade sexual que o nome sugeria. A cada conquista de Dick – e conta-se que somou mais de cinco mil até atingir os trinta anos de idade – a fama sobre o seu desempenho sexual ganhava foros de lenda. A vingança sobre aqueles que dele zombaram durante anos foi retumbante: todos sem excepção foram impotentes para evitar o inevitável, ou seja, que as suas namoradas e mulheres cedessem, também elas, à tentação da cock de Dick (ou do dick de Cock).

Claro está que, onde Dick resolveu um problema grave, arranjou outro tão ou mais grave ainda. A sua determinação em ganhar proveito à custa da fama do nome levou-o até limites quase imagináveis. O prazer da conquista revelou-se pouco coisa para satisfazer o desejo de vingança das humilhações a que fora sujeito durante anos. Experimentou então de tudo: foi prostituto pago a peso de ouro, referência central do circuito do cinema pornográfico, objecto sexual fetiche em bailes de máscaras em castelos da Baviera, e por aí fora. Do Brasil a Cuba, de Amesterdão a Varsóvia, de Bangkok a Luanda, visitou meio mundo à caça da última novidade dos roteiros sexuais. Até o muito hipster Steve McQueen (o artista plástico e realizador, nada de confusões com o defunto actor) fez um filme inspirado na sua vida, chamando o prodigioso Michael Fassbender para o representar na tela. O novo problema de Dick, o tal com que curou o anterior, estava mais do que identificado: Dick Cock transformara-se num adito sexual em último grau. De acordo com a escala que a sexologia clínica usa nas medições, Dick Cock estava possuído pela mais grave e intensa forma de patologia pela qual a adição sexual se manifesta.

Uma nova etapa começou então na vida de Dick Cock. Perdão, de Richard Cook, porque o primeiro passo, dos muitos necessários para um tratamento eficaz da patologia, era, justamente, a mudança de nome. O tal nome que, por causa de um lamentável engano, nunca chegara a sê-lo, era agora recuperado, ainda que os documentos de identificação e o registo o desmentissem.  Seguiram-se infindáveis sessões de terapia, individuais ou de grupo, que até dolorosíssimos electrochoques meteram. Uma tortura como até nunca vivera. Antes mil sessões de bullying no liceu (daquelas que o seu nome inspirara) a dez segundos desta abjecta e terrível provação dos electrochoques.

Richard Cook não aguentou muito tempo de terapia. Para quê reprimir a sua verdadeira natureza? Era um adito sexual, e depois? Nunca violou ninguém, nunca obrigou nenhuma mulher a fazê-lo com ele. Nunca constituiria família, não deixaria descendência, é certo, mas, enfim, nada com que não pudesse viver. Aquilo também lhe trazia coisinhas boas, é ou não é verdade? Que se lixe o Richard Cook, Dick Cock forever pensou ele.

Pegou nas trouxas e foi para Portugal passar umas férias. Praia do Norte, na Nazaré, era o último grito, disseram-lhe. Não conhecia bem a razão de tão veemente recomendação mas, claro, como tudo na sua vida girava à volta “daquilo”, presumiu que, se a ele o mandavam para lá, era porque a Nazaré devia ser do melhor para “aquilo”. Até por lá andava um americano viciado, um tal de McNamara. Viciado “naquilo” só podia. Tranquilizou-o saber que a família de Jesus vinha de lá, da Nazaré, pelo menos era essa a ideia que tinha da série de televisão que vira há uns anos, só não sabia que a Nazaré ficava em Portugal, a terra de Cristiano Ronaldo, aquele soccer player que andava com o borracho da russa Irina. Talvez a encontrasse por lá e conseguisse humilhar o Ronaldo, quem sabe.

Andava Dick Cock absorto nestes pensamentos quando embarcou no barco do velho lá na Nazaré. Com ele, seguia um grupo onde estavam uma morena e uma loura deliciosas. Aditas, como ele, só podiam. Não lhe resistiriam certamente. Uma, a morena (que, by the way, tinha um rabinho absolutamente fabuloso que estava mesmo a convidar a “isso mesmo”), até se fazia acompanhar por um dálmata. Tão tarada que até metia animais nas suas fantasias. Estranhou que o mar estivesse para o agitado, é verdade. Mas já não estranhou que os passageiros se despissem todinhos mal se apanharam a uma milha da costa, a caminho da tal Praia da Norte. O velho do barco explicou-lhe, a ele e aos demais aditos, que iam viver uma experiência única, o mais radical dos turismos que até tinham experimentado. Já se imaginava em plena orgia em alto mar.

De pouco mais se lembra Dick. Só mesmo do gigantesco susto que apanhou. Tão gigantesco o susto quanto gigantesca – uma muralha de trinta metros de altura – era a onda que o submergiu, a ele, à loira e à morena. Submergiram-nos justamente no momento em que se aprestavam a começar “aquilo”. Sabe que perdeu os sentidos e acabaram por ir buscá-lo debaixo de água. Parece que o seu salvador foi o tal de McNamara, que afinal era só viciado em ondas grandes.

O susto ficou-lhe para a vida. E curou-lhe o problema. Mas arranjou-lhe outro. Depois do susto, nunca mais conseguira fazê-lo. Sentia-se mais ridículo do que nos tempos da adolescência. Tinha o nome mas faltava-lhe uma cock, ou um dick, que funcionasse. Diziam-lhe que tinha de voltar a Portugal, porque era lá que estavam as mulheres mais bonitas e sexy do mundo, as únicas que podiam resolver-lhe o problema.

Sobre Diogo Leote

Longe vão os tempos em que me divertia a virar costas a senhoras que não gostavam de Woody Allen. Mas os preconceitos de então ficaram-me. O de preferir as vozes sofridas e os gritos de raiva, ou os sons negros e abafados, ao fogo-de-artifício dos refrões fáceis. O de só admitir happy ends em situações excepcionais, quase sempre em histórias de amor em que ninguém apostaria um cêntimo. O de não procurar encontrar explicação para os desígnios insondáveis da sedução ou para tudo o que não é dito, que é quase tudo, na grande arte. E continuo com esta mania de andar atrás da tristeza. Dizem os psicólogos que isso é um privilégio dos que não a têm no seu código genético. Eu não os desminto. A verdade é que, se não embirrasse tanto com a palavra “feliz”, até a usaria para exprimir o prazer que sinto ao escrever sobre almas abandonadas ou corações destroçados. Ainda bem que escrever é triste.
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8 respostas a A inacreditável história de Dick Cock

  1. riVta diz:

    ah ah ah ele há ondas … Bem apanhado!

  2. Bem me parecia, Diogo, que a pesca da sardinha não era coisa para se ir de fato e gravata. Só não fazia ideia que fosse assim, com o pessoal tão descamado e de guelras vermelhas à mostra. Próximo jantar do blog: Nazaré, está claro.

  3. Maria do Céu Brojo diz:

    Conheço muito boa gente que, sem mais, ficaria em pelota por um Dick Cock assim.

  4. nanovp diz:

    Há problemas que não se resolvem, ou que não vale a pena serem resolvidos…

    • Sobretudo para aqueles que se alimentam de problemas. Ou que têm problemas de estimação. E quando o mais grave problema é não ter problemas para resolver, então nem se fala.

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