A Lente que Recolhe a Vida

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“For a long time I used to remain silent, completely absorbed in my own world…”

Marc Riboud queria que a “verdade profunda” transparecesse na “superfície das coisas”. Nascido francês em Lyon, torna-se cidadão do mundo quando se afunda nessa estranha forma de o olhar através de uma lente espelhada.

Ao descrever a sua vida, tudo parece simples, linear, o curso de engenharia que não o atrai, a fuga ao trabalho, para não mais voltar, numa fábrica qualquer. O delírio das primeiras viagens, aos dezoito anos para Nova Iorque, onde passa três meses na esplendorosa urbe cintilante dos anos cinquenta, e estuda a fotografia moderna americana. De volta a Paris uma das primeiras fotografias acaba, com o empurrão de Robert Capa, na revista Life. E nunca mais a vida foi a mesma para Riboud.

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Aos vinte anos entra na conhecida agência Magnum, que Riboud descrevia como uma “velha e ultra estimada instituição “. Quando pede conselhos aos “mestres” para saber como lidar com o desafio que se lhe apresenta, fica confuso…Cartier Bresson o mestre intocável da fotografia francesa diz-lhe: “Não ligues ao que o Chim diz… ” (Chim era a alcunha de David Seymour o fotógrafo Polaco co-fundador com Robert Capa da agência Magnum), mas Chim logo o avisa: “Não ligues muito ao que o Capa diz…”, e o próprio Capa, directo e sem hesitações: “sobretudo não ligues ao Henri…”

George Rodger, o terceiro dos fundadores, encerra a conversa e as dúvidas com uma lição essencial: ” Não ligues a ninguém. Mas ouve o que eu te digo: a Magnum é uma família!”

E foi uma família para Riboud, de quem nunca mais se separou. E a família estava sempre em viagem, Riboud percorre o mundo e volta percorrer, ao ponto de dizer que ” os lugares são como os amigos: quero sempre voltar a vê-Los.” A vida que se confunde com a imagem, a imagem que orienta a vida. Para Riboud foi a forma de se relacionar com o mundo, a forma de falar e gritar, ele que quando pequeno miúdo se mantinha em silêncio e criava o seu próprio mundo na solidão sem ruido.

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Sobre Bernardo Vaz Pinto

Não conseguiria nunca ser bailarino actor ou cantor sem aquela coragem segura que lhes permite não desfalecer sob os olhares escondidos de qualquer audiência. Prefiro esconder-me sob uns traços gordos de um lápis de lâmina macia, em fundo branco de papel, acarretar a velocidade lenta de uma qualquer construção que se faz colocando pedra sobre pedra. Ou passar tempo a decifrar, agora por detrás destes óculos de vidro, caligrafias de ficção e poesia, que acabam por aparar a nossa existência, e até moldá-la, abrindo portas a novos sonhos e realidades que não vislumbrávamos até à data. A música. Negra, principalmente riscada nos pântanos de new orleans, e no fumo gelado do south side de chicago. O jazz num solo de Baker, o Miles de pés e mãos marcadas pelo tempo e pelos abusos num concerto em Tokio onde a língua falada era mesmo a música. E Bach. E sempre Bach. De resto, pouco mais, entre a vontade de sonhar a vida e o sonho de vivê-la. O olhar da estrada que passou que ilumina o caminho incerto do futuro. A vontade de expelir para fora o ar que nos fica preso cá dentro.
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8 respostas a A Lente que Recolhe a Vida

  1. riVta diz:

    «A Lente que Recolhe a Vida»
    um zoom portanto

  2. Gostei muito deste passeio pela família Magnum, Bernardo, também pelo muito que gosto de fotografia, de uma fotografia inspiradora que abra portas desconhecidas.

  3. Fala bem (e é aqui bem escrito) este miúdo silencioso.

  4. Pedro Norton diz:

    pronto. gostei à brava.

  5. Maria do Céu Brojo diz:

    Perdoe-me o telegrama económico: “Gostei e pronto!”

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