A Loja do Mestre Wong

 

"O Grande Mestre", de Wong kar-Wai

“O Grande Mestre”, de Wong kar-Wai

Wong kar-Wai (China, 1956) é um daqueles casos exemplares de sobreavaliação crítica. De coerência temática – a solidão na multitude, a impossibilidade do amor concretizado – e estilística – música de peso romanesco, grandes planos em picado, câmara lenta sublimando cada gesto -, kar-Wai conseguiu fazer passar uma violenta boçalidade por sabedoria pós-moderna e um discurso metapoético por caviar da alma. O apetite ocidental babou-se com tanta lascívia formal, tomando os infindáveis aforismos sobre a precariedade humana como verdades artísticas de génio.  Com paralíticos no rosto dos protagonistas a sublinhar interiores em tormento, kar-Wai construiu uma carreira apoiada em frases ditirâmbicas como “o tempo é húmido”, enquanto o fumo de cigarros entupia o ecrã e a complacência festivaleira lhe estendia passadeiras vermelhas. Se “In The Mood For Love” era um caso único de excelência na adequação entre forma e conteúdo, este falso “biopic” de Yip Man, o lendário professor de kung-fu, é o seu segundo melhor filme. Após nove anos de preparação e um ano de montagem, “O Grande Mestre” é menos sobre Yip Man (interpretado pelo príncipe “cool” dos actores, Tony Leung) e mais sobre o trabalho sensitivo e filosófico implícito nas artes marciais. Numa estrutura episódica, alternando imagens de arquivo com a luxúria decorativa em que Kar-wai é – aí sim – mestre, o filme foca-se sobretudo no relacionamento entre o professor e Gong Er (Zhang Ziyi, magnífica), a herdeira de Gong Yutian, patriarca das escolas de artes marciais do Norte, mantendo-se coerente com o irreparável abismo sentimental que sempre divide as personagens do cineasta. E os combates são os mais íntimos e belos desde “O Tigre e o Dragão” de Ang Lee. Experimente.

Publicado na revista Sábado

Sobre Pedro Marta Santos

Queria mesmo era ser o Rui Costa. Ou sonâmbulo profissional. Se não escrever, desapareço – é o que me paga as contas desde 1991 (são 20 anos de carreira, o disco está a sair). Há momentos em que gosto mais de filmes do que de pessoas, o que seria trágico se não fosse cómico – mas passa-me depressa. Também gosto dos olhos da Anna Calvi. E das bifanas do Vítor. Aprecio um brinde: “À confusão dos nossos inimigos”. Não tenho nenhuns, só uma ternura infinita pelo azul das árvores e o amarelo do mar. E peço: digam-me mentiras.
Esta entrada foi publicada em Post livre. ligação permanente.

6 respostas a A Loja do Mestre Wong

  1. Ai! Que facada… vá lá, sempre me salva os combates.

  2. Pedro Norton diz:

    olha Pedro, não digas que eu não te avisei se o Diogo se imolar à frente da tua casa.

  3. Com este teu quente/frio o que vou fazer é ver-lhe os filmes que praticamente não vi nenhum (será que adormeci?)

  4. Pedro Marta Santos diz:

    Se soubesse que esta lâmina lhe seria tão afiada, Eugénia, teria refreado o ímpeto. A minha amiga gostar do senhor Wong quase que me dá vontade de rever a obra com olhos purificados. Para o Diogo – lamento, sôtor – não terei a mesma clemência. Precisas de fósforos? Ou então anda cá a casa ver um filme do Hsou Hsiao Hsien, esse sim um verdadeiro artista oriental. Deves ter adormecido, Manel. Eu cá ressonei no “2046”.

  5. nanovp diz:

    Pois eu também fiquei adormecido no “2046” e acho que agora vai ser difícil espevitar de novo….

  6. Maria do Céu Brojo diz:

    Outro texto para o meu baú dos tesouros. O que aprendi não vou perder.

Os comentários estão fechados.