A Vida no Espelho

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“Mirror” é sobretudo memória. Memória que se materializa em imagem, em acção, em planos, “travellings” e “close-ups”. É a memória da própria imagem, e homenagem, porque a imagem é já, como foi antes a pintura, a possibilidade da continuidade da memória. Aquele, talvez fugaz, momento em que ainda se acredita que por ter sido assim, assim continuará.

A memória como história, como um acto de amor, o passado como força que empurra o presente.

Mirror é o filme do meio de Tarkovsky, antes do sublime “Stalker” e depois de “Solaris”, o filme menos amado de Tarkovsky, onde o realizador achou que se tinha perdido nos ” efeitos especiais” da narrativa. É um voltar a por os pés na terra, a terra que Tarkovsky tanto gosta, a terra da memória do passado, a busca de uma identidade, do homem singular e de todo um povo russo.

A narrativa é constantemente quebrada, e a imagem torna-se omnipotente, tudo se submete à sua lógica, o texto, a música, nós mesmos. Em muitos casos é uma “voz-off” que ouvimos, enquanto o olhar da câmara, (e nosso talvez), avança vagarosamente por entre salas e quartos, através de portas e corredores. O tempo baralhado entre a imagem, a voz; baralhado entre o uso da cor e do preto e branco, lado a lado, como Trakovsky já nos tinha habituado logo em Andrey Rublev, na magistral cena final.

Mirror é já o grande Tarkovsky das texturas cuidadosamente filmadas como personagens, as paredes manchadas, descascadas; o pormenor revelado pelo tempo nos cabelos desgrenhados da protagonista, ou na mancha derramada do leite, sacralizada pelo nosso olhar. A água e o vento que nos lembram que existimos fora dali.

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Trakovsky

Não há nem nunca houve pressa em Tarkovsky. O tempo do filme, dos planos do filme, é o tempo da vida, o nosso tempo. A memória a única certeza que temos, não só a guerra, a dor, o tempo que corre com as rajadas de vento que atravessam cenas e personagens, o campo virgem de erva alta; também o choro do amor, das crianças que dormem descansadas na rede pendurada nas árvores.

É um cinema que me faz falta, muita falta.

Sobre Bernardo Vaz Pinto

Não conseguiria nunca ser bailarino actor ou cantor sem aquela coragem segura que lhes permite não desfalecer sob os olhares escondidos de qualquer audiência. Prefiro esconder-me sob uns traços gordos de um lápis de lâmina macia, em fundo branco de papel, acarretar a velocidade lenta de uma qualquer construção que se faz colocando pedra sobre pedra. Ou passar tempo a decifrar, agora por detrás destes óculos de vidro, caligrafias de ficção e poesia, que acabam por aparar a nossa existência, e até moldá-la, abrindo portas a novos sonhos e realidades que não vislumbrávamos até à data. A música. Negra, principalmente riscada nos pântanos de new orleans, e no fumo gelado do south side de chicago. O jazz num solo de Baker, o Miles de pés e mãos marcadas pelo tempo e pelos abusos num concerto em Tokio onde a língua falada era mesmo a música. E Bach. E sempre Bach. De resto, pouco mais, entre a vontade de sonhar a vida e o sonho de vivê-la. O olhar da estrada que passou que ilumina o caminho incerto do futuro. A vontade de expelir para fora o ar que nos fica preso cá dentro.
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12 respostas a A Vida no Espelho

  1. Luisa Mendes Gonçalves diz:

    E o filme Nostalgia, não tenho palavras para descrever. Vi há já muitos anos, achei sublime, adorava rever. É como diz um cinema que faz falta.

    • nanovp diz:

      Partilho da opinião do próprio realizador de que Solaris é talvez o seu filme menos conseguido. Os restantes é difícil dizer qual escolheria são todos obras únicas que ficarão certamente para a historia…Nostalgia é sem duvida uma obra-prima…Continuo a revê-Los sempre que posso em DVD, infelizmente no cinema é mais difícil…

  2. olinda de freitas diz:

    a continuidade da memória como, então passado, sempre presente.

  3. Manuel S. Fonseca diz:

    Eu, que nunca tive saudades de Tarkovsky, ficho cheio de inveja, Bernardo, desta tua intimidade com os filmes dele. E da tua total qusência de pressa.

    • nanovp diz:

      Pois eu sei Manuel que na tua lista ele está lá para trás…Eu também gosto do facto de que são poucos filmes, podemos conhecê-los e revê-los um a um…over and over…e sem pressa claro!

  4. riVta diz:

    olha
    este não vi

  5. Tar­kovsky… terei de rever com os seus olhos.

  6. nanovp diz:

    Eugénia é preciso tempo e telemóveis desligados, mas compensa, um domingo qualquer de frio e ceu azul profundo como o de hoje…e dar atenção aos poemas (do pai de Tarkovsky), que a “voz off ” declama no filme…

  7. Maria do Céu Brojo diz:

    É para hoje, se o youtube tiver o filme em armazém. Que bem seduziu o provável espectador!

  8. A porca da minha Vida não dava um Filme,mas podia ser filmada,assim via-se a tristeza.

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