Atiraste uma pedra

nelson

uma dor-de-cornismo que ia de bonde no Brasil, em Lisboa de eléctrico, em Luanda de maximbombo

Há uma música brasileira de abrir o peito e cantar. Nelson Gonçalves, garganta boémia, já cantava há mais de dez anos quando eu nasci. Abria o peito, cantava e fingia. Mas para fingir tão bem, alguma coisa sentia. A música dele era muito próxima da pose popular, do chorado amor de bairro, de uma dor-de-cornismo que ia de bonde no Rio de Janeiro, em Lisboa de eléctrico, em Luanda de maximbombo. Nas melhores noites, cantava-se em cabarés existenciais, em dançada cena canalha, na espessa nuvem de cem cigarros, numa rouquidão de uiskis (grafada assim esta palavra parece uma garrafa de cantina).

Música fingida, era uma verdade de mentiras feita. Cantou-a, em “Atiraste uma Pedra”,  Nelson, cantaram-na assim Ângela Maria, Dalva de Oliveira. Mesmo Deus, era no Genésis dia de descanso, ouviu-a e disse aos anjos que aquilo que era bom.

Depois veio a cultura e a cultura gostou disto. E fingiu que era reflectida e coral decepção o que em Nelson Gonçalves era a resignada e simples dor-de-corno. Eles foram os “Doces Bárbaros” (chamavam-se Bethânia, Gal, Caetano, Gil) e atiraram estas pedras a “Atiraste uma Pedra”. Nem canalhice, nem faca, nem liga. E Deus, foi por altura de Sodoma e Gomorra, pagou bilhete, ouviu-a e disse aos anjos (aos que não estavam pedrados) que aquilo também era bom.

 

Sobre Manuel S. Fonseca

O meu maior medo é que a morte seja tudo às escuras sem se poder ler. Pouco interessa deixar de ser humano, desde que não deixe de ser leitor. Ler é do mais feliz que tenho. Até porque escrever é triste.
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12 respostas a Atiraste uma pedra

  1. Por favor Bota Bom nisso.Obrigado.

  2. Bom, bom, era eu saber cantar. Um abraço

  3. Maria do Céu Brojo diz:

    Delirante o conteúdo e a escrita. Jamais me lembraria da imagem de Deus pagando bilhete!

  4. Mais canalha ou mais cultural somos sempre coro doce e bárbaro: todos atirámos a pedra e turvámos a água. Todos a demos puríssima a beber. Até Cristo, ainda no pensamento de Deus, terá visto e pensado que isso era bom e amou Madalena para ser amado e Judas para ser traído.

  5. Emeel diz:

    A beleza está no poema, na música, na sublime criação dos gestos. O que lhe deu forma, é cinzento e nebuloso. Se já todos atirámos pedras e turvámos a água, talvez nunca tenhamos entrado no templo com botas cardadas e sujas de lama. É só uma questão de sensibilidade. (Ou será só o prosaico bom gosto…?)
    Profundo o sentir e excelente a forma de o transmitir. Já há muito que o sei e leio.

  6. nanovp diz:

    Grande lembrança Manuel, e que ricos eram esses “doces bárbaros”…

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