Há festa na aldeia

Há festa na aldeia I

Há festa na aldeia I

A bem dizer, eu nunca tive uma aldeia. Experimentei um mundo enorme, meio selva, meio firmamento que ficava ali entre a escola politécnica e o abismo de São Pedro de Alcântara.

Minto. experimentei outra. A aldeia que era a Vila dos verões da minha meninice. O mundo civilizado que se sonhava, lá longe, na rusticidade de granito e musgo de que se fazia a casa que, por abuso manifesto, continuo a dizer minha. De uma frescura de trinta primos e de uma solenidade de que são feitas as casas em que os adultos quase nunca falam. Pratos com defeito que giravam e que eram um festa, das antigas, para quem tocava comer-lhes a sopa em cima. Corredores sombrios iluminados pela magia de um cinema projectado ao contrário pelo buraco de uma fechadura. Um santo trazido à socapa de um convento, que foi esplendor e se fez ruína, por artimanhas que não são para esta história. Gigante e agigantado pela luz escura de um candeeiro a petróleo que era tudo quanto separava o xixi a meio da noite do terror dos mais puros. A venda e a igreja que fediam como só se fede no alto Minho. As tardes de bola no ténis. A bola ensebada e as cobras da coutada guardadas em formol.

É Bonita que se farta a minha aldeia.

Há festa na aldeia II

Há festa na aldeia II

Há festa na aldeia III

Há festa na aldeia III

 

Sobre Pedro Norton

Já vos confessei em tempos que tive a mais feliz de todas as infâncias. E se me disserem que isso não tem nada a ver com tristeza eu digo-vos que estão muito, mas muito, enganados. Sou forrado a nostalgia. Com umas camadas de mau feitio e uma queda para a neurose, concedo. Gosto de mortos, de saudades, de músicas que nunca foram gravadas, de livros desaparecidos e de filmes que poderiam ter sido. E de um bom silêncio de pai para filho. Não me chamem é simpático. Afino.
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10 respostas a Há festa na aldeia

  1. Isto não é só alegria. Também é incendiada paixão. E, com tanto terror, algum xixi na cama.

  2. Mario diz:

    beleza comparavel so nas iluminacoes da festa da nossa senhora dos milagres em ponta delgada.

  3. Maria do Céu Brojo diz:

    Entupiu-me com a beleza escrita e vista.

  4. nanovp diz:

    Inveja e saudades….

  5. Luísa Tavares de Mello diz:

    A nossa aldeia é linda. Pena que não seja eterna.

  6. Pingback: Eu, o Manuel e o cão. | Escrever é triste

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