Madiba somos nós

Mandela

Já tudo se disse e tudo se escreveu sobre Nelson Mandela. Sobre Madiba. Ou quase. A mensagem de radical inclusividade racial, humaníssima, que foi a sua e que foi a de sempre. Os anos de chumbo do seu longo cativeiro, a coragem férrea de quem nunca aceitou negociar uma libertação que sempre quis mas que sobretudo sempre soube querer que fosse radicalmente incondicional. E, finalmente, a liberdade. Uma longa infinidade depois. Num dia absurdamente perto de ontem, na memória a preto e branco de tantos de nós, garotos ou já não tanto, à frente de tantos milhões de televisores, por instantes feitos centros de um mundo cada vez mais espalhado pelas quatro partidas do mundo.

Muito se escreveu, com igual justiça e propriedade, sobre tudo o que não fez. A sede de vingança que nunca nele se empederniu nem se fez sólida e concreta. O ódio que disciplinadamente se obrigou, dia após dia, a cortar cerce e que nunca chegou a toldar-lhe a razão. A árvore da reconciliação que, vá lá saber-se com que forças, nunca deixou de regar. Nem na cela minúscula de Robben Island, nem mesmo quando, na hora inebriante da vitória, cá fora tudo era descontrolada euforia, exaltação e a generalizada explosão de um sofrimento que o tempo não queria nem podia reprimir mais.

Mas o que é verdadeiramente espantoso neste personagem único da história da humanidade é aquilo que, em bom rigor, lhe não pertence: a empatia que em cada um de nós suscitou, a compaixão que em cada um de nós, suave mas solidamente alimentou desde aquele dia mágico de 1990 em que o vimos fazer-se, frágil, de carne e osso, depois de anos a fio congelado numa foto amarelecida de jornal. O que é verdadeiramente luminoso em Nelson Mandela é a capacidade quase mágica para descobrir e fazer-nos descobrir, em cada um de nós o melhor que a nossa alma nalgum canto alberga. Por muito fundo que seja preciso escavar, por muito ténue e trémula que seja a luz que nem sabemos que brilha, por muito frágil que seja essa capacidade, fugaz, para nos emocionarmos com os outros que somos todos e somos também nós próprios.

É estranho que seja um ateu como eu a dize-lo. Mas é nessa luminosa capacidade que reside, em larga medida, a sua imortalidade. É pelo menos assim que, na minha heterodoxa forma de pensar e sentir a morte, o vejo. Não me refiro obviamente à imortalidade no sentido propriamente cristão do termo. Não é disso que falo nem é nisso em que acredito. Não é também necessariamente na imortalidade dos ideais, dos sonhos, dos projectos. Por mais perenes, duradouros, resistentes, que estes sejam, ensina-nos a experiência que há sempre um baú para os guardar e fazer esquecer no vasto sotão da história. Por muito vivos e vividos que tenham sido, o tempo encarrega-se sempre de os transformar em abstracções puras, assépticas, académicas, desligadas da emoção que lhes serviu de sopro de vida.

A imortalidade de Mandela, e de outros, poucos, muito poucos, como ele, radica na extraordinária capacidade de redescoberta que permite, em cada um de nós. Na capacidade de, redescobrindo-nos nele, redescobrirmos a centelha de indestrutível humanidade que há, sempre houve e sempre haverá em nós. A imortalidade de Mandela não é pois o seu exemplo, não é a sua mensagem, não são as suas ideias e muito menos será o culto que se lhe seguirá. A sua imortalidade é a universal humanidade de que tomamos consciência em cada um nós. É esse o segredo da espontânea empatia, da surpreendente e universal compaixão, da adesão incondicional à figura, ao homem e à lenda que, percebemo-lo melhor na sua morte, somos, em maior ou muito menor escala, também todos nós.

Sobre Pedro Norton

Já vos confessei em tempos que tive a mais feliz de todas as infâncias. E se me disserem que isso não tem nada a ver com tristeza eu digo-vos que estão muito, mas muito, enganados. Sou forrado a nostalgia. Com umas camadas de mau feitio e uma queda para a neurose, concedo. Gosto de mortos, de saudades, de músicas que nunca foram gravadas, de livros desaparecidos e de filmes que poderiam ter sido. E de um bom silêncio de pai para filho. Não me chamem é simpático. Afino.
Esta entrada foi publicada em Post livre. ligação permanente.

5 respostas a Madiba somos nós

  1. Donde é que vem tudo aquilo que o seu terceiro parágrafo, Pedro? Que fósforo é que acende essa calorosa empatia? Há em Mandela uma conjugação de olhar e sorriso que nos abre as portas da confiança. Penso que um certo peso gingado do corpo também ajuda.
    Ah, sim, e para os mais sérios: as ideias também ajudam.

  2. Mandela é um produto de consumo como qualquer outro, a sua importância é imaginária (aquece, reconforta o imaginário), e não histórica, a figura central do processo sul africano foi de Klerk, e por processo quero dizer a mudança nas leis do apartheid, depois a sociedade, naturalmente, ajustou-se.

    No entanto, todo o espetáculo, desta última encenação, deu a Portugal História, como não podia deixar de ser, num país produtor de História, são épicos (para além de Camões) os comentários dos locutores que a RTP lá mandou.

  3. Maria do Céu Brojo diz:

    Muito, muito bom, Pedro Norton.

Os comentários estão fechados.