Magnifique Adèle

Antes de as luzes se apagarem, olhei em volta e não me espantei com o que (não) vi: mulheres, muitas mulheres, algumas até de provectíssima idade, alguns homens, sim, mas casais heterossexuais, para além de um que eu cá sei, nem vê-los. Não há dúvida: aqui no burgo, as mulheres estão muito à frente dos homens, pelo menos dos homens – quase todos – que, do âmago do seu conservadorismo bolorento, se recusam a levar ou a acompanhar as mulheres a “filmes de fufas” (nada de confusões, a expressão é deles, não minha). E “filme de fufas” é tudo o que a Vida de Adèle não é: não o é porque o que nele conta é, só, o amor, o amor retratado como poucas vezes o cinema nos mostrou. No filme, a haver uma barreira que explica o afastamento final das duas mulheres, essa é, não a da orientação sexual e o preconceito que lhe é inerente nos olhares de terceiros, mas a das diferenças sociais que as separam. Mas porquê duas mulheres, porquê tantos minutos de sexo explícito entre duas mulheres, perguntarão certamente os mais cépticos sobre as alegadas nobres intenções do argumentista e realizador, o franco-tunisino Abellatif Kechiche (que, para o efeito, reinterpretou à sua maneira a novela gráfica Blue is the Warmest Colour, de Julie Maroh). Pois talvez esteja aí o milagre do filme. Fosse uma história de amor dentro de padrões mais convencionais – leia-se heterossexuais -, e talvez corresse o risco de passar despercebida entre tantas outras que o cinema e a literatura já nos deram. O engodo do filme é, precisamente, o de, primeiro, nos obrigar a olhar para aquilo a que não estamos habituados. De nos prender primeiro para, depois, nos fazer esquecer, minutos mais à frente, o motivo pelo qual o nosso olhar tinha sido desviado. Afinal, é só um filme sobre o amor e o sentimento de perda (haverá amor sem o temor da perda que lhe está associado?) entre duas pessoas. Mais um filme sobre o amor? Não, este é mais credível do que quase todos os outros. Um amor tão credível entre duas pessoas que todos – todos, heterossexuais, homossexuais ou bissexuais, menos os tais conservadores bolorentos que talvez não saibam bem o que é o amor por alguém que não por si próprio – nele nos revemos. Nenhuma distância ou diferença há entre o amor que a adolescente Adèle primeiro estranha, e depois nela se entranha, o amor que Adèle vive, respira, sofre e chora, e o amor que nos bateu à porta quando, mais ou menos adolescentes, mais ou menos adultos, ainda jurávamos a pés juntos que nada – e muito menos a diversa origem social, ou o simples facto de a mulher amada se chamar Adélia e não Marta, Vera ou Sofia – nos podia impedir de acreditar na promessa de eternidade que o mais nobre dos sentimentos, naqueles tempos de inocência, logo colava ao nosso destino, sem retorno possível. Um amor tão credível que ninguém acredita que a personagem Adèle do filme e a actriz Adèle Exarchopoulos não sejam uma e a mesma pessoa (Kechiche, de tanto querer apagar o mínimo sinal de representação, mudou o nome da personagem Clémentine da novela inspiradora para Adèle). Um amor que justifica, e de que maneira, as polémicas cenas de sexo, ou não fosse o seu propósito, não o do voyeurismo, mas, justamente, o da credibilidade da relação e do filme inteiro, e que atire a primeira pedra quem me consiga provar que a maioria do sexo que existe fora dos écrans não é mais representado ou fingido do que aquele que Adèle e Lea Seydoux vivem no écran.

Tão credível é o amor e a perda entre Adèle e Emma que, três horas depois, quando as luzes se voltaram a acender, olhei à volta e vi as senhoras, incluídas as de provectíssima idade, tão surpreendidas quanto eu. Afinal, a Vida de Adèle é, só, um filme, Adèle, aquela Adèle que podia ser nossa sobrinha ou vizinha do lado, é, só, uma actriz que usa o mesmo nome da personagem. Ora aí está a suprema ilusão do cinema. E a prova provada de que, para ser cativante, não tem o cinema de nos transportar para universos que estão fora do nosso alcance. Basta que nos permita olhar para dentro de nós e reconhecermo-nos naquilo que vemos. Claro está que isso não podia ser mais incómodo para os conservadores bolorentos que se recusam a acompanhar as mulheres a “filmes de fufas”. Sobretudo quando o tal olhar interior é dirigido, de fora, por um filme tão extraordinário quanto A Vida de Adèle, por uma actriz tão prodigiosa quanto Adèle Exarchopoulos.

Sobre Diogo Leote

Longe vão os tempos em que me divertia a virar costas a senhoras que não gostavam de Woody Allen. Mas os preconceitos de então ficaram-me. O de preferir as vozes sofridas e os gritos de raiva, ou os sons negros e abafados, ao fogo-de-artifício dos refrões fáceis. O de só admitir happy ends em situações excepcionais, quase sempre em histórias de amor em que ninguém apostaria um cêntimo. O de não procurar encontrar explicação para os desígnios insondáveis da sedução ou para tudo o que não é dito, que é quase tudo, na grande arte. E continuo com esta mania de andar atrás da tristeza. Dizem os psicólogos que isso é um privilégio dos que não a têm no seu código genético. Eu não os desminto. A verdade é que, se não embirrasse tanto com a palavra “feliz”, até a usaria para exprimir o prazer que sinto ao escrever sobre almas abandonadas ou corações destroçados. Ainda bem que escrever é triste.
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6 respostas a Magnifique Adèle

  1. nanovp diz:

    Pois ainda não vi Diogo, mas tenho ouvido só elogios…ainda vou ver se o apanho…

  2. Lá tenho de ir ver, mas três horas é… é… olha, é obra.

  3. Maria do Céu Brojo diz:

    Vou tentar ver.

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