Mokambo

UM BOM-DIA COM MOKAMBO
Tenho estado aqui à procura de uma palavra
não queria dizer mágica
irrita-me a palavra mágica
mas na verdade é mágica a palavra que procuro
pode ser o voo nas asas do xamã
ou qualquer gesto que enrole o tempo para trás
até mesmo o bastão de prodígios
de onde nascem serpentes
e a chave que abre o mar em dois
Eu que tenho a mania vitamínica da saúde
redoxon centrum alhos envelhecidos soja ácidos gordos
penso que vou ter um exacto enfarte a qualquer instante
e penso que esta hipocondria saiu de areias imprevistas
ferventes como líquido metal inesperado depois de sólido
– sei muito bem já estive no deserto
E penso enquanto pensas que é mentira vais morrer de facto
É ansiedade um ataque de pânico querem lá ver olha não é só aos outros
se vais morrer ao menos que seja a escrever
mesmo uma merda qualquer serve se vais morrer
Lembro-me do reclame a não-café de quando era pequena:
parece que é mas não é
que gosto que satisfação
Brasa é bebida
que aquece o coração
É isso parece que é mas não é é um bom mantra às quatro da manhã
yoga que gosto que satisfação em meia dúzia de posturas lentas
pombo ponte roda
abrem o peito inspira expira inspira
aquece o coração
O único clarão há-de ser o da folha branca no ecrã
porque ainda não escrevi nada do que quis escrever
e amanhã vais ter um bom dia com Mokambo

Sobre Eugénia de Vasconcellos

Escrever também é esta dor amantíssima: os lábios encostados à boca do silêncio, auscultando, e nada, esperando dele a luz que beije. É assim, pelas palavras se morre, pelas palavras se vive.
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17 respostas a Mokambo

  1. Paula Santos diz:

    E as memórias enrolam o tempo para trás…

    Bom dia. Com Mokambo…;-)

  2. Luisa Mendes Gonçalves diz:

    Eu também me lembro do Toddy só não consigo recordar se era ou não cacau, Tinha uma cor avermelhada. É engraçado mas não são os antigos pequenos almoços que me “enrolam o tempo para trás” são as pessoas que já partiram e que permanecem no coração, mesmo que exista aquele cheirinho do “não café” associado. Digo isto sem tristeza mas com saudade. Mais uma vez obrigado por escrever é triste.

  3. Mario diz:

    Lembro-me de um anuncio genial (e digo genial porque ainda me lembro dele e consigo associa-lo a marca) da TAG Heur (relogios) protagonizado pelo Ayrton Senna com a punchline “Don’t crack under pressure” em que se brincava com a pressao das corridas e a capacidade do relogio em aguentar a pressao hidroestatica. Lembrava-me sempre do anuncio quando estava pressionado e tinha que superar qualquer coisa. Ate que um dia o Ayrton quebrou mesmo e esqueci-me da frase. Ate hoje.

  4. riVta diz:

    Entre o Mokambo e o Ayrton Senna hoje, acho que preciso de uma coisa bem mais forte! Talvez um knockout. Dava jeito.

  5. nanovp diz:

    Um bom brandy é capaz de ser melhor para a escrita Eugénia…

  6. Fartei-me de gostar, Eugénia.

  7. Apanhei o Mokambo quando cheguei a Portugal, no marcelíssimo 1973. Bem me safou nesses tempos de orçamento de uma leveza kunderiana em que eu ia tarde e más horas a caminha da faculdade de direito, gorilas a cada esquina.

  8. Maria do Céu Brojo diz:

    Olha a memória que arribou aqui! Gostei e gostei.

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