O meu bairro não é lindo

 

O meu bairro não é lindo. É sofrido. Cruzou-me linhas no rosto, tão frias como as do eléctrico.

As casas velhas e as ruas tão apertadas não me deixavam alcançar os prédios novos cor de rosa sonho, com que eu gostava de sonhar.

O meu bairro não é lindo, é profundo. É lá ao fundo, onde as pessoas usavam roupas feias e as mulheres de alta, só tinham os saltos das socas e a dignidade no olhar.

O meu bairro não é lindo é antigo. Aprendi um calão que já me esqueci de falar.

É sujo de vinho, de escamas de peixe e no verão há nevoeiros de sardinha.

Há esquemas, segredos, famílias e muita confusão.

O meu bairro não é lindo, nem equilibrado. Há ruas tortas que vão dar a sitio nenhum. As pedras choram todos os dias lágrimas demasiado escorregadias e podemos escorregar. Mas como diz o primo Samba, Escorregar não é cair, é um jeito que o corpo dá.

É negro como a noite e de companhia só tem mesmo as estrelas e o fôlego de cada um por si.

O meu bairro não é lindo nem Deus toma conta de todos. Nem  sequer por lá passa. Lá só passam desgraças. Mas há um santo que é adorado e que eu sei também adorar-nos. Até tem uma igreja com o seu nome, onde pedimos desejos e acendemos velas. (e mais não digo, não vá ele perder a cônfia em mim)

O meu bairro não é lindo, vive-se com uma ânsia de qualquer coisa que não sabemos bem o que é, mas que é sentida por muitos.

Tem vida a mais. Tem almas em sobreposição. Se calhar é por isso  que dizem cheirar a saudade.

O meu bairro não é lindo mas vejo o Tejo da minha janela a correr pela minha vida inteira. Eu todinha naquelas águas. A passar.

Não é bonito mas é gingão.  Tem eléctricos para andar á pendura.  Cámones para fazer troça. Esquinas de beijos roubados, a Travessa da Saudade e também tem o Jardim das Pichas Murchas, mesmo ali na subida pra Graça .

O meu bairro não é lindo, as pessoas falam mal. Dizem palavrões à boca cheia e dizem o que têm para dizer. Nem se preocupam em conjugar bem verbos. Mas sabem fazer e dizer bem versos.

O meu bairro não é lindo. É violento. Há facas, alguidares, gritos de meia noite e mais a Puta que os pariu.

Também há muitas subidas para nos lembrar das descidas. Degraus e escadinhas. Escadas  escuras em caracol, onde não há botão para acender. Sobem-se, sobem-se e nunca mais se lá chega. É muito cansativo o meu bairro. Há que ter um bom coração.

O meu bairro não é lindo, tem solidão e as vozes roucas, gastas, do Coxo da Graxa, da Preciosa das Cautelas, do Charrett,  que me despertaram anos seguidos com os seus pregões de solidão habitual.

O meu bairro não é lindo mas deu-me o que tenho e faz-me sonhar.

 

Sobre Sandra Barata Belo

Nasci em Lisboa no final da década de 70. Cresci em Alfama e nas férias, que não são grandes, vou sempre para o Alentejo. Sou filha única, aprendi a brincar sozinha. Gosto que me contem histórias mas também gosto de as contar. A palidez da realidade pode pôr-me sem cor, por isso nada melhor que uma boa gargalhada. Gosto de coisas simples, de pessoas generosas, gosto de arte. interpretei a grande Amália no cinema. Seguiram-se as novelas da SIC. Isso faz com que as pessoas me reconheçam na rua. Estudei no Chapitô onde aprendi todas as bases do que sei fazer hoje. Já fiz muitas coisas, dancei, fui trapezista, malabarista e clown (fica sempre melhor em inglês). Produzo, dirijo e levo a palco livros e autores que admiro. Continuo a querer fazer muitas coisas diferentes. Sou curiosa e não quero deixar de o ser.
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15 respostas a O meu bairro não é lindo

  1. riVta diz:

    ó vizinha … tem cá disto????
    😛
    gostei de conhecer o teu bairro

  2. Sandra, gostei muito do seu bairro, palpita-me que me dava bem lá.

    E mais, um bairro onde alguém diz, escorregar não é cair, é um jeito que o corpo dá, pode não ser um bairro lindo, mas é um lindo bairro. É por essas e outras que digo que mais de metade de boa literatura que se faça, é ouvido.

    • Sandra Barata Belo diz:

      também me parece que sim. a Eugénia parece que tem sempre a resposta na ponta da língua…. e o ouvido treinado 🙂

  3. Mário Romão diz:

    olá Sandra, mesmo que não conhecesse Alfama (suponho que é a esse que se refere), saía do texto a gostar do bairro. A alma cria a beleza, a poesia molda a alma, e certos lugares têm essa magia, a de se incrustarem nos pequenos refúgios dos nossos dias.

  4. nanovp diz:

    E é só teu? Não dás nada à malta???

  5. Maria do Céu Brojo diz:

    Que pintura linda! Ainda pintalgo tela sobre este seu texto.

  6. Mario diz:

    Se trocar “bairro” por “suburbio”, que e onde a maioria de nos vive, ja nao e a mesma coisa…

  7. Ai que é a danada da Madragoa! Que belo textinho em caracol: a subir e a descer.

  8. miguel diz:

    boa, os bairros por onde tenho vivido sabem e cheiram também assim…www.lisbonpoesis.blogspot.pt

  9. Mas tem Gente “Bonita” e boa.

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