O Quadro Surpresa

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O embrulho tinha chegado, impecavelmente acomodado, entre papel pardo grosso, fatias finas e bolinhas de esferovite. Logo se percebeu que se tratava de um quadro. Adelaide passeava-se pela sala cheia de luz, ainda em roupão, cabelo deslavado e chávena de café na mão. Para mulher de sessenta anos não podia estar melhor, figura quase perfeita, pernas alongadas, proporcionais a um torso elegante, que parecia saído de uma escultura grega. A face de pele lisa onde se destacava uma boca vermelha e sensual, era inveja e desejo de muitas amigas e amigos. Curiosa como era nem sequer pensou em esperar por Raimundo, o seu quarto marido, que saía de casa com o sol a nascer, vestido sempre com o mesmo tipo de fato, (azul escuro ou preto, casaco de três botões, a mostrar a camisa nos pulsos), e voltava de noite, para jantar. Já quase não falavam, mas nenhum dos dois se parecia importar.

-Quem é que veio entregar a encomenda? Perguntou de soslaio à governanta, Lurdes de nome, que Raimundo obrigava a andar vestida de farda completa, colarinho e luvas incluídos.

-Um rapaz de um serviço de entregas minha senhora, assinei um papel que tenho lá dentro na gaveta da cozinha…

-Oh rapariga não estou a duvidar de nada… e era giro o rapaz, ao menos?

-Nem reparei minha senhora, nem reparei… enrubesceu para ficar da cor de uma romã.

-Bem vamos abrir isto antes de ter de me vestir, mas antes traz-me mais uma chávena de café por favor.

O quadro era um perfeito quadrado, com 2.13 metros de lado, e com todo o aparatoso embrulho parecia enorme. Foram tirando as camadas de papel e esferovite, arrancando e cortando a fita-cola larga que parecia agarrar-se a tudo.

-Encosta aí para que ele não caia!

Com a última camada de papel pardo revelou-se uma luz azul esverdeada que emanava da tela colorida. Finalmente a imagem estava à vista: sob um céu pesado e um mar de inverno, um grupo de pessoas, duas mulheres e três homens, encostados ou deitados no convés de um pequeno barco de recreio. Nus, ou semi-nus. Acompanhados de um cão. Lurdes foi a primeira a reagir com um “OHHH” prolongado, a mão a tapar a boca. Adelaide levou tempo a analisar, passando os olhos vagarosamente pela superfície da tela envidraçada, saboreando a imagem…

-Bem quem não vai gostar de ver isto é o Sr. Raimundo, disse, a cortar o longo silêncio, apertando o roupão e preparando-se para beber o último trago de café.

-Olhe que isso é que eu não sei minha senhora, se calhar, quem sabe…até nem percebe…

-Quem não percebe és tu minha tontinha…Não vês que de costas, nua como quando vim ao mundo, sou eu! E aqueles três foram os meus três primeiros maridos…

Sobre Bernardo Vaz Pinto

Não conseguiria nunca ser bailarino actor ou cantor sem aquela coragem segura que lhes permite não desfalecer sob os olhares escondidos de qualquer audiência. Prefiro esconder-me sob uns traços gordos de um lápis de lâmina macia, em fundo branco de papel, acarretar a velocidade lenta de uma qualquer construção que se faz colocando pedra sobre pedra. Ou passar tempo a decifrar, agora por detrás destes óculos de vidro, caligrafias de ficção e poesia, que acabam por aparar a nossa existência, e até moldá-la, abrindo portas a novos sonhos e realidades que não vislumbrávamos até à data. A música. Negra, principalmente riscada nos pântanos de new orleans, e no fumo gelado do south side de chicago. O jazz num solo de Baker, o Miles de pés e mãos marcadas pelo tempo e pelos abusos num concerto em Tokio onde a língua falada era mesmo a música. E Bach. E sempre Bach. De resto, pouco mais, entre a vontade de sonhar a vida e o sonho de vivê-la. O olhar da estrada que passou que ilumina o caminho incerto do futuro. A vontade de expelir para fora o ar que nos fica preso cá dentro.
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8 respostas a O Quadro Surpresa

  1. Viver com a memória das conjugalidades anteriores na parede da sala…

  2. Mario diz:

    ja se percebeu que um destes dias o Raimundo esta a dar uma volta de barco 🙂

  3. Bernardo, se foi prenda de Natal, ninguém leva a mal…

  4. Maria do Céu Brojo diz:

    Ele há respostas para tudo!

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