Países Em Obras

"China - Um Toque de Pecado", de Jia Zhang-ke

“China – Um Toque de Pecado”, de Jia Zhang-ke

Financiado pela primeira vez por verbas estatais, Zhang-ke, talvez o maior dos realizadores da “sexta geração” chinesa, troca a poesia realista de estudos anteriores (“Platform”, o belo “Still Life”) por quatro histórias  independentes mas unidas pela violência: um mineiro, antigo militar, revolta-se contra a corrupção que grassa na sua cidade; um trabalhador migrante vive por fluxos de assassínio; a recepcionista de uma casa de massagens, amante de um homem casado, explode com um cliente abusivo; o empregado de um bordel afunda-se entre os novos milionários do país. Alternando imaculadas panorâmicas com a ágil minúcia da câmara à mão, Zhang-ke sugere que nem a revolta sangrenta (há tigres e serpentes à espreita) chega para sanar as rupturas introduzidas pelo culto do consumismo e a corrupção governamental na China contemporânea.

"O Som ao Redor", de Kleber Mendonça Filho

“O Som ao Redor”, de Kleber Mendonça Filho

Longa-metragem de estreia do pernambucano Kleber Mendonça Filho, “O Som ao Redor” promete fazer pelo cinema brasileiro o que Lucrecia Martel e “O Pântano” fizeram pelo cinema argentino: colocá-lo no mapa da modernidade. Como o filme de estreia de Martel, “O Som ao Redor” é a fotografia singular de um microcosmos que serve como símbolo da exaustão de um país. Onde havia pedaços de fantasmas da ditadura ou choques entre a tradição familiar e o desejo de fuga da letargia, há agora a ansiedade securitária e a tensão classista de uma nação-continente em mudanças profundas. São várias personagens num bairro de classe média da zona sul do Recife – quem procurar aqui uma história linear, está lixado – que buscam sexo, repouso emocional ou simples tranquilidade entre as torres cada vez mais altas dos arranha-céus que vão esmagando o verde: um patriarca ligado às raízes rurais, o neto que mostra os prédios circundantes a possíveis inquilinos de classe alta, apaixonando-se pelo caminho, a mãe de dois filhos que congemina a morte do cão que não a deixa dormir enquanto se masturba com as vibrações da máquina de lavar roupa para enganar o tédio, e a equipa de segurança privada que, um dia, vem alterar o equilíbrio precário do bairro. Há música dos Queen, flashes sonoros quase alienígenas, pesadelos em que um bando de miúdos das favelas invadem os pátios da rua, visitas a cinemas em ruínas, banhos em águas subitamente ensanguentadas e uma ameaça de violência que cresce até final. Candidata pelo Brasil ao Óscar de melhor filme estrangeiro, não é uma obra de que se goste facilmente. Mas capta como poucas a atmosfera de um país construído entre a riqueza, a miséria e o medo.

Publicado na revista Sábado

Sobre Pedro Marta Santos

Queria mesmo era ser o Rui Costa. Ou sonâmbulo profissional. Se não escrever, desapareço – é o que me paga as contas desde 1991 (são 20 anos de carreira, o disco está a sair). Há momentos em que gosto mais de filmes do que de pessoas, o que seria trágico se não fosse cómico – mas passa-me depressa. Também gosto dos olhos da Anna Calvi. E das bifanas do Vítor. Aprecio um brinde: “À confusão dos nossos inimigos”. Não tenho nenhuns, só uma ternura infinita pelo azul das árvores e o amarelo do mar. E peço: digam-me mentiras.
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4 respostas a Países Em Obras

  1. O Zhang-ke filma bem, às vezes muito bem, a violência. Mas o filme foge-lhe das mãos, não achas? Tem uma história a mais (é talvez o meu gosto pela santíssima trindade) e a irresolução das outras três é demasiado anhti-climax…

  2. Concordo contigo quanto à história em excesso, Manel. E é filme que se admira mais do que se gosta.

  3. nanovp diz:

    O “Still Life” é um grande filme, ainda não vi nenhum dos que falas, mas vontade não falta, aguçada por estas tuas crónicas!

  4. Maria do Céu Brojo diz:

    Não vi. Pelo seu escrito quero ver.

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