Sta. Nicollette

pin up de Haddon SundblomNicollette era uma santa. Um metro e setenta e dois de altura, sorriso feito de dentes brancos e luz, cabelos longos, sensualmente soltos e despenteados como os da Vénus a sair da casca, e um ratio anca/busto de 0.7. Nicollette era perfeita. E não era deste mundo. Era de outro, de um mundo habitado por seres com um coração muito maior que o nosso. Quem vê caras, bustos e ancas não vê corações e o coração de Nicollette era o mais importante. Era tão grande como a solidão de um velho na noite de Natal.
Virgílio era um velho mesmo velho. Era tão velho que os seus tomates descaídos chegavam já a meio da coxa. Um espetáculo deprimente, como se pode imaginar, e que não se pode mostrar a ninguém, e que nem sequer é confortável. Uma vez, numa revista, o velho Virgílio lera que o actor Nick Nolte tinha os seus já a tocar os joelhos e que por isso fizera um lifting. Mas o velho Virgílio não tinha dinheiro para isso.
O que o velho Virgílio ainda tinha, acima da média para a idade, era tesão. Ora quando se chega à idade do velho Virgílio, tesão pode ser um problema: quem nós queremos para a aliviar não nos quer nem ver e quem nos quer nós não queremos nem imaginar. Um velho rabugento e viúvo como Virgílio, quando ainda tem tesão, só tem uma solução: pagar.
Nicollette visitava o velho Virgílio todos os Natais. O Natal dos velhos viúvos é a noite mais triste do ano. É uma noite sem amor, sem calor, de cama fria e memórias angustiantes. Felizmente havia Nicollette, essa santa. Virgílio não se lembra quando começaram as visitas mas foi muitos anos depois da sua mulher morrer. Todos os Natais, por volta da meia-noite, o velho Virgílio, recostado no sofá em frente à lareira, fechava os olhos e via Nicollette descer pela sua chaminé e fazer-lhe um Natal muitíssimo feliz.
Abençoada Nicollette que como os bombeiros, os médico, os paramédicos – e ao contrário dos homens do lixo – trabalhava na noite de Natal.

Sobre Pedro Bidarra

As pessoas vêm sempre de algum sítio. Eu vim dos Olivais-Sul, uma experiência arquitecto-sociológica que visava misturar todas as classes sociais para a elevação das mais baixas e que acabou por nos nivelar a todos pelo mais divertido. Venho também da Faculdade de Psicologia da clássica, Universidade Clássica de Lisboa onde li e estudei Psicologia Social e todas as suas mui práticas teorias. Venho do Instituto Gregoriano de Lisboa onde estudei os segredos da mais matemática, e por isso a mais emocional e intangível de todas as artes, a música. E venho sobretudo de casa: de casa das duas pessoas mais decentes que até hoje encontrei; e de casa dos amigos que me ajudaram a ser quem sou. Estes foram os sítios de onde parti. Como diz o poeta (eu): “Para onde vou não sei/ Mas vim aqui parar/ A este triste lugar.”
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3 respostas a Sta. Nicollette

  1. Diogo Leote diz:

    Ainda bem que Natal não combina com solidão. Estava longe de imaginar é que podia combinar tão bem com tesão. Digno de uma edição de Natal da Playboy dos seus tempos áureos.

  2. A senhorita Nicolette reformou-se há pouco. Foi um bico de obra resolver o embrulho da Segurança Social, não fora uma sobrinha do Senhor Virgílio. Está sozinha a senhorita Nicolette e o ratio anca/busto já não a ajuda na limpeza da casa. Ninguém, nem o pessoal do Centro de Dia, para uma visitinha a limpar-lhe o corredor a pano.

  3. nanovp diz:

    Se houver mais um “velho Virgílio” a acabar o ano com um sorriso na boca, que venham as Nicolettes…

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