Um Dálmata nunca tira o pijama

 

Old boat

Vê bem os dois putos? Estão mais recolhidos do que umas cabeças de alho chocho. Já se arrastam os dois. Ajoelharam e não é para rezar.

– É quase fim-de-semana sim, fim-de-semana sim.

– Mas gostas?

– Oh, podia viver sem isto, mas não era a mesma coisa.

– Sabes, eu enjoo, acho que nunca conseguiria.

– A maior parte das vezes o mar está flat. Ele traz o Bob e o Jack, os dois sobrinhos, eu levo a Joan e a Joan traz o Dálmata. Uma calmaria. Mar e céu misturam-se e mal se sabe onde está a linha de horizonte. Ias gostar.

– Kate, parece-me mais uma pasmaceira.

– E é, Irina. Mas é desses fins-de-semana de tédio que mais gosto. Estar ali no mar, nus, os corpos ao sol, de vez em quando uma cerveja…

– Mas estás vestida na foto. Estão todos nus, tirando tu e, vá lá, o Dálmata, que está de pijama, atendendo ao que tu dizes que fazem.

– Não acreditas?

– Hmmm… sei lá bem! Explica lá isso devagarinho…

– Oi amiga, daqui a nada sabes mais do que eu. Já é a terceira vez que te conto.

– Eu não tenho culpa de ser saloia e só dormir com um homem de cada vez.

– Irina, é mais íntimo do que parece. Já nos conhecemos há uns tempos. É só um round robin. Despimo-nos todos. A Joan e eu deitamo-nos, cada uma num colchão, em lados opostos do convés. Cada uma de nós tem um egg-timer programado para mais ou menos três minutos. Um deles vem para a cama comigo, outro com a Joan. Ao fim de três minutos, toca o egg-timer e o que ficou de fora vem ter comigo, o que estava comigo atira-se à Joan. E assim sucessivamente, a cada três minutos.

– E dizes tu que é um tédio…

– Olha que é, Irina. Fico ali deitada, às vezes de olhos fechados, e é como se viessem do mar uns faunos, leves… pouco mais é do que uma brisa marinha.

– Bom, Kate, se chamas uma brisa a dois putos de vinte aninhos e ao tio sátiro de cinquenta. Vê bem o olhar que ele te está a mandar na foto.

– Irina, querida, ao fim de uma hora de mete e tira, gira, mete e tira e gira, já toda a gente está como ele, com ar de Orfeu a querer baldar-se à Eurídice. Vê bem os dois putos? Estão mais recolhidos do que umas cabeças de alho chocho. Já se arrastam os dois. Ajoelharam e não é para rezar.

– E o Dálmata? Kate… Kate, não me digas…

– Deixa-me pôr as coisas desta maneira, Irina: uma pessoa habitua-se a tudo.

Sobre Manuel S. Fonseca

O meu maior medo é que a morte seja tudo às escuras sem se poder ler. Pouco interessa deixar de ser humano, desde que não deixe de ser leitor. Ler é do mais feliz que tenho. Até porque escrever é triste.
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3 respostas a Um Dálmata nunca tira o pijama

  1. Manuel, ligaram-me agora da Christie´s para me dizer que a cotação do Fischl no mercado subiu em flecha por causa de uma história que mete um dálmata num quadro dele.

  2. nanovp diz:

    E porque é que o Dalmata haveria de ficar de fora….? Só por causa da pele? Agora três minutos é que acho pouco Manuel…para o cão claro!

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