Uma noite de Lux(o)

Este será, provavelmente, o primeiro texto que escrevo sobre a “noite” de Lisboa. E garanto-vos que não será por falta de frequência da dita, porque dela usei e abusei durante umas boas duas décadas. Talvez por ter bem presente a principal motivação dos homens que saem habitualmente à noite, nunca me atrevi a quebrar a regra de confidencialidade tácita que a solidariedade masculina dita nessa matéria, if you know what I mean. Talvez por eu próprio me ter já libertado dessa motivação – se quiserem entendê-lo como um piropo para alguém em especial, façam favor – esteja agora mais à vontade do que nunca para apreciar outros encantos da vida nocturna. E, se me permitem, aquilo que vi e ouvi ontem depois das 23.30 foi a mais eloquente demonstração de que uma noite também pode ser perfeita mesmo que passada no interior de uma discoteca. Bom, é certo que o Lux não é uma discoteca qualquer – nenhum espaço dançante se lhe compara em Portugal, e porventura até lá fora, em matéria de ambiente, programação musical e efeitos cénicos e decorativos. Mas, se isso já o sabia há muito, nunca antes tinha aí assistido a tanta coisa boa a acontecer em tão curto espaço de tempo. A começar pelo conceito das noites temáticas Black Baloon, aí programadas com regularidade pelo Pedro Ramos da Radar – e haverá estação de radio mais perfeita do que a Radar? Mas, se a Radar é perfeita e o conceito só por si já promete, o que dizer quando o tema ou pretexto da noite é nada mais nada menos do que a recriação integral de The Queen is Dead, o mais emblemático álbum da mais marcante (não necessariamente pelo número dos que foram marcados mas pela intensidade com que o foram) banda dos anos 80 – para quem ainda não tenha percebido, estou a falar dos (The) Smiths, claro. E o que dizer ainda quando o responsável pela recriação smithsoniana é um talentosíssimo músico/compositor/cantor português, que se apresenta sob o nome artístico de Walter Benjamin (sim, o mesmo sobre o qual já aqui escrevi)? E quanto às companhias de que Walter Benjamin se fez rodear, como não abrir a boca de espanto ao assistir à interpretação vocal que o não menos talentoso Noiserv (sobre o qual também já escrevi aqui e aqui) nos ofereceu da mais melancolicamente bela canção de toda uma geração, The Boy With The Thorn In His Side? Como se tudo isto não fosse já suficiente para justificar a saída de casa, como ficar indiferente à onda de euforia que depois se instalou no andar de cima quando o Zé Pedro – sim, o Zé Pedro dos Xutos & Pontapés, também autor e apresentador na Radar do excelente Zé Pedro Rock´n´Roll – tomou conta do set e, com a alegria juvenil de um adolescente à descoberta de novas sensações musicais, nos deu uma magistral lição sobre a história do rock´n´roll recorrendo a um sem fim de monumentos dançantes que, dos Stones dos 60´s aos Arctic Monkeys, Strokes, Black Keys ou Kaiser Chiefs de anos mais recentes, fez rolar ali mesmo, direitinhos aos mesmos ouvidos (entre os quais os meus, não vou escondê-lo) que chegaram a vaticinar, em tempos não tão distantes assim, a morte do rock. Meus caros, quem disse que os duros não dançam é porque nunca ouviu Zé Pedro a passar música (e, digo-vos, até o durão do Legendary Tiger Man lá estava, a par doutros músicos de barba rija, a bater o pé no meio da pista).

Em suma, uma noite perfeita. Tão perfeita que nem Morrissey faltou à festa – em espírito sim, mas haverá alguém que troque o espírito do vocalista e letrista dos Smiths pelo seu corpo? Tão perfeita que tive o privilégio e o prazer de a partilhar in loco com gente de quem gosto muito. E eu que, até há uns anos atrás, mal sabia que a “noite” não era só território de caça e também nos dava prazeres destes, que ficam para a vida.

Sobre Diogo Leote

Longe vão os tempos em que me divertia a virar costas a senhoras que não gostavam de Woody Allen. Mas os preconceitos de então ficaram-me. O de preferir as vozes sofridas e os gritos de raiva, ou os sons negros e abafados, ao fogo-de-artifício dos refrões fáceis. O de só admitir happy ends em situações excepcionais, quase sempre em histórias de amor em que ninguém apostaria um cêntimo. O de não procurar encontrar explicação para os desígnios insondáveis da sedução ou para tudo o que não é dito, que é quase tudo, na grande arte. E continuo com esta mania de andar atrás da tristeza. Dizem os psicólogos que isso é um privilégio dos que não a têm no seu código genético. Eu não os desminto. A verdade é que, se não embirrasse tanto com a palavra “feliz”, até a usaria para exprimir o prazer que sinto ao escrever sobre almas abandonadas ou corações destroçados. Ainda bem que escrever é triste.
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6 respostas a Uma noite de Lux(o)

  1. Fato diz:

    Não é Diogo: é o Vincent Vega de Santa Apolónia, o Fred Astaire da Bica, o Gene Kelly do Restelo.
    Era vê-lo

  2. Diogo Leote diz:

    Ó minha Ginger da Borges Carneiro, e eu que não consegui acompanhar o teu passo.

  3. nanovp diz:

    Noite dançante portanto… Lisboa não pára!

  4. Diogo Leote diz:

    Bernardo, a verdade é que o Lux é uma honrosíssima excepção na pobre “noite” de Lisboa. Mais: acontece-me estar lá e esquecer-me que estou em Portugal (a estrangeirada que habitualmente lá se encontra também ajuda à impressão).

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