Vida e máquinas

Dia de Natal

Dia de Natal

 

Visito um lar de idosos no dia de Natal. São olhares vazios de vida (ou cheios de outra vida, quem sabe?) que me fazem pensar na possibilidade do homem ter inventado as técnicas e as máquinas para sobrevivermos – 92 anos, 93 anos, 95 anos – mas ainda não ter inventado, ou sabido fazer as estruturas para que compreendamos o que querem os nossos velhos. Querem que os deixem? Querem morrer? Sabem que é Natal e não têm paciência para a data? Nem sabem que época é, apesar de as televisões sempre acesas? O mundo infantilizado que assistentes, enfermeiras e funcionárias criam à volta destes velhotes – palavras cheias de inhos e inhas – é do seu agrado? Ou detestam, pura e simplesmente o que têm? Não se expressam porque não podem ou porque não querem? Temos os meios de prolongar a vida, mas não sabemos o que havemos de fazer com ela. Ou, então, optimisticamente, direi que estes nossos velhos são os pioneiros de um outro mundo onde todos nos compreenderemos e seremos úteis. Hoje os velhos fazem-nos falta se partirem e fazem-nos pena quando ficam.

Sobre Henrique Monteiro

Nunca fui um sedutor, embora amasse algumas mulheres hospitaleiras. Nunca fugi de um combate, mas sempre invejei quem, ao abrir as portas de um saloon, provoca pânico entre os bandidos. Tenho nas veias sangue jacobino, mas odeio revoluções e igualdades uniformizadoras. Sou pacato e desordeiro, anarquista institucional, maestro falhado, cantor romântico e piroso a quem falta tom. Sem nunca me levar a sério - no melhor sentido da palavra, acho que apenas sou um homem bom (e barato).
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9 respostas a Vida e máquinas

  1. Luísa Tavares de Mello diz:

    ” Hoje é um descanso e o meu coração parte ao encontro de si próprio. Se uma angústia ainda me estreita, é a de sentir este impalpável instante escorregar-me por entre os dedos como estas gotas de mercúrio. Deixai , pois, aqueles que querem voltar as costas ao mundo. Não me queixo porque me vejo nascer. Nesta hora todo o meu reino é deste mundo. Este sol e estas sombras, este calor e este frio que vêm do fundo do ar: vou eu perguntar-me se alguma coisa morre e se os homens sofrem, já que tudo está escrito nesta janela onde o sol derrama a sua plenitude ao encontro da minha piedade? ” in O avesso e o direito de Albert Camus.

    Henrique Monteiro, não tenho todas as respostas para as suas perguntas mas posso dizer-lhe que os velhos detestam o mundo infantilizado a que os reduzem. Não querem ser tratados por inhos e inhas – com a intimidade parola de “familiares” emprestados – Os velhos querem que os tratem pelos nomes e se possível pelos títulos que tiveram, se tiveram, enfim com a vida e a dignidade que não perderam por terem envelhecido e que tinham, exactamente, antes de entrarem no lar.

    Não acredite, mesmo que aparentem nos seu desinteresse. Eles não estão desinteressados, estão em crise existencial. O lar e os tolos que os rodeiam não os ajudam a prolongar a vida e a auto estima e eles não têm paciência, nem tempo, para explicar isso.

    Boas- Festas

  2. Henrique Monteiro diz:

    Obrigado

  3. Francisco Silva diz:

    Praticamente o mesmo que eu penso. So nao escrevo tao bem.
    Obrigado

  4. Fatima MP diz:

    Só saberemos quando lá chegarmos … os que chegarmos. E … mesmo aí, será que saberemos … ?? Bom Natal!

  5. Ana Maria Jacinto diz:

    Mistério que a sociedade moderna eternaliza …

    Quando entendermos o que se passa no coração dos mais velhos,, teremos outros problemas por resolver.

    A vida não é ciência nenhuma, é mais do que tudo o que em laboratório se pode ensaia…

  6. ERA UMA VEZ diz:

    Olá Mariazinha, com está hoje esta Mariazinha?
    Ela nem sorriu. Então vamos mudar essa fraldinha?
    Ela encolheu os ombros.

    Já vi que a nossa pequenina não está muito bem disposta.
    Pois não, respondeu
    E eu aqui a dar-lhe carinhozinho…

    Então, levantou o queixo e com firmeza e solenidade conseguiu dizer:
    ” Não me leve a mal…mas podendo ser sua bisavó, de nada me serve o seu carinho se me tratar como uma infantilóide
    Prefiro muito mais o seu respeito.
    E até que Deus me leve, gostaria que me chamasse de DONA MARIA.É assim que me reconheço. Faz-me esse favor?

  7. Estou a terminar o “Toda uma Vida”, o melhor livro que li em 2013 e um dos melhores sobre a vida e a velhice de que tenho memória.
    Qualquer citação a propósito seria, pois, sua, meteria flores de plástico e portanto dispenso-a!
    Obrigado pelos momentos agradáveis e inteligentes que me proporcionou.
    Bom ano de 2014!

    • Henrique Monteiro diz:

      Obrigado. Fico comovido. Acho esse livro a única coisa que escrevi do fundo do fundo do coração. Gosto muito dele e adoro que gostem dele… Como eu gosto.

  8. nanovp diz:

    Felizes seremos se servirmos os outros, mas é mais difícil do que parece…

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