A Canção de David

Dictionary

 

Lá vem este com mais um dicionário.

 As enciclopédias e os dicionários, de Diderot (o mistério do mundo) a Borges (a magia do mundo), são o paraíso dos obsessivos. Elas e eles classificam o inclassificável, ordenam o caos, garantem segurança onde a dúvida se insinua. São bússolas nas interrogações da tempestade.

As enciclopédias tornam-se torres altíssimas – mesmo quando se chega ao fim, já pouco nos lembramos do início – feitas de janelas sobre a terra e sobre o sol, contemplando o infinitamente pequeno e o desproporcionadamente grande.

Os dicionários não são apenas coleções exaustivas de palavras. Eles traçam a história de um povo, com a racionalidade que o tempo permite e a mais viva comoção do quotidiano.

O “biographical” em “The New Biographical Dictionary of Film”, de David Thomson (1975, com cinco revisões até ao momento, edição original da Martin Secker & Warburg Ltd) é uma redundância. Antes de mais, porque este dicionário não é um dicionário, é uma enciclopédia (e os estudiosos das enciclopédias conhecem a importância das contribuições individuais para as entradas em cada volume). Depois, porque uma enciclopédia temática reflecte sempre a visão e a experiência do seu autor. Acrescem as idiossincrasias deste autor em particular. David Thomson não é pera doce. Mostra-se dono de um cinismo estratosférico. Destrói carreiras numa frase, imortaliza outras com um substantivo. Escreve sobre o mito e a mecânica do cinema há mais de quatro décadas. É romancista (de opúsculos sempre ancorados nas cruezas e lendas de Hollywood). E o seu lugar é central na bibliografia anglo-saxónica da especialidade.

 A quarta edição, a que li e onde agora viajo pela terceira vez (há uma quinta edição, publicada em Outubro de 2010, estando prevista uma sexta para Maio deste ano) tem cerca de 1300 entradas. Nela cabem figuras tão contrastantes como Dreyer e John Cusack, ou Noel Coward e Rin Tin Tin. Todas as referências são relativas a personalidades, e é através delas que a gigantesca escultura do cinema é cinzelada. Como demonstrará uma rápida passagem pelos tomos clássicos da escrita de/sobre cinema, quase todos os livros indispensáveis têm uma marca biográfica. A crítica de arte é cultura e enquadramento histórico. Mas é sobretudo sentimento e emoção. Um filme é um ser vivo, foco de uma experiência intensa e pessoal, e a forma como para ele olhamos depende tanto da vida percorrida na tela como da vida sentida fora dela.

O tom de Thomson não é, portanto, original. O mesmo não se pode dizer da dimensão e do fôlego. Isto é um trabalho de Hércules, mas o autor lança-se à tarefa com um entusiasmo sem precedentes. Os seus defeitos são tão fascinantes como os seus triunfos. Para ele, a diferença entre “movies” (fitas) e “cinema” (arte) é clara. Numa paixão sempre condimentada pela ambivalência (não são assim todas as paixões, antros de máximo carinho e de máxima repulsa?), são raros os cineastas, técnicos, actores, da Hollywood que tanto ama, a merecerem caução artística.

 Leo McCarey e Mitchell Leisen são entertainers menores. Billy Wilder, um autofágico arrivista. Zinnemann, uma besta. Wyler é um medíocre (concedo, mas e “The Letter”? E “The Heiress”?). Henry King, um vendido às atrações de feira. Sternberg? Decorador de pechisbeques. Michael Curtiz, pouco mais do que um trolha. Hitchcock escapa pontualmente (“Vertigo”, “Janela Indiscreta” e, em especial, “Shadow of a Doubt”), mas não deixa de ser um velhaco misógino. Um tarado. Bette Davis é uma histérica. Spencer Tracy, conservador esforçado. Ford deve ser visto com toda a prudência. Hawks, Lang, Cary Grant, James Stewart, Gregg Toland: contam-se pelos dedos os dignos do intransmissível panteão.

As taras, e as febris particularidades, são tantas como os ódios de cabeceira. A começar pela paixoneta adolescente por Nicole Kidman (a quem Thomson já dedicou um livro inteiro). Pressente-se o colarinho babado em três ou quatro encontros casuais, o deslumbre com a longilínea figura, a dor de cotovelo pelo marido (Tom Cruise) que lhe dava pelo cotovelo – há mais piropos assoberbados a Kidman do que a Marlene Dietrich. Actriz favorita: Angie Dickinson (no caso, Thomson ficou em 1959, na blusa desabotoada da Feathers de Hawks/Leigh Brackett). Onde o autor passa do sarcasmo verrinoso para a prosa reverencial é quando aborda os mestres europeus e orientais: Renoir e Ozu, antes de mais; mas também Bresson, Bergman, Mizoguchi, Naruse.

Porquê, então, o renovado fascínio de  “The New Biographical Dictionary of Film”? Porque David Thomson é um magnífico escritor. Há páginas comparáveis a Graham Greene. E ao melhor Norman Mailer. A cinefilia é contagiante, babilónica. A erudição aproxima-se de um Steiner. E, por vezes, quando  Thomson abre a moviola e rebobina a infância nos grandes cineteatros de Londres ou nas salas fumarentas dos subúrbios, estamos a seu lado, na plateia, os olhos presos às sombras. E sorrimos.

Sobre Pedro Marta Santos

Queria mesmo era ser o Rui Costa. Ou sonâmbulo profissional. Se não escrever, desapareço – é o que me paga as contas desde 1991 (são 20 anos de carreira, o disco está a sair). Há momentos em que gosto mais de filmes do que de pessoas, o que seria trágico se não fosse cómico – mas passa-me depressa. Também gosto dos olhos da Anna Calvi. E das bifanas do Vítor. Aprecio um brinde: “À confusão dos nossos inimigos”. Não tenho nenhuns, só uma ternura infinita pelo azul das árvores e o amarelo do mar. E peço: digam-me mentiras.
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5 respostas a A Canção de David

  1. Pedro Norton diz:

    Começo a achar que recebes comissões da Amazon.

  2. Pedro Marta Santos diz:

    I wished, cardinalíssima presença.

  3. A minha Bíblia. Tenho a 1ª edição americana, de 76, publicada pela William Morrow & Company, em NY. e a 3ª, da Alfred A. Knopf, de 94. Leio-o como um ateu. Pelo prazer do que diz.

  4. Não é a minha – sobre essa, o “50 Ans de Cinéma Américain” de Tavernier/Coursodon, também já aqui escrevi, se bem que mal – mas não me canso de reler o Thomson, pelo gozo que dá e pelo que se aprende.

  5. nanovp diz:

    Verdade verdadinha Pedro? Comprei-o há uns anos sem saber bem o que estava a comprar…surpresas da vida.

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