A Escravatura Aqui ao Lado

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Doze Anos Escravo

Este é um filme belíssimo.

Este é um filme sobre o inferno. Este não é só um filme sobre a escravatura como tantos antes se fizeram. Este é um filme sobre a fraqueza humana, o ódio, o egoísmo, o horror, e sobretudo a hipocrisia e o medo. O medo que nos torna hipócritas e egoístas. O egoísmo que nos leva ao horror, à imposição de uma odiosa violência sobre um outro qualquer. Este é um filme assombroso no verdadeiro sentido da palavra porque nos assombra e nos deixa assombrados por algo que não conseguimos entender. É também um filme de uma violência psicológica extrema, levantando questões para as quais não encontramos respostas.

Como foi possível ter acontecido? Como foi possível que uma sociedade permitisse a mais profunda desumanização de parte dessa mesma sociedade? Como foi permitida a legalização do ódio? Como se caiu, uma outra vez mais, na deturpação total da moralidade cristã?

Este é um filme que nos obriga a olhar o espelho e a responder à mais difícil de todas as perguntas: E eu o que faria? E eu o que faço? De que lado quero estar?

Este é um filme que brada um grito, rouco, seco e aterrador, já não o cantar melodioso dos apanhadores de algodão sob o sol abrasador da Louisiana. Este é o grito que nos obriga a acordar, a olhar o mundo olhos nos olhos, sem a panóplia de efeitos especiais e atenuadores vários que parecemos já não questionar.

Este é o grito nos olhos e nas expressões de Chiwetel Ejiofor, actor principal. Olhos que nos perseguem mesmo quando desaparecem do ecrã. Olhos e expressões que nunca mais iremos esquecer, porque são os olhos e os gestos desesperados de toda uma humanidade que sofre injustamente, sob o ódio desmedido, sob uma violência irracional, infligida por quem podia afinal ser nosso irmão. Ali na América da escravatura, como hoje nas ruas das grandes metrópoles, nas cidades destruídas por guerras incompreensíveis, nos acampamentos de imigrantes criteriosamente localizados nas franjas da “nossa” Europa limpa e educada.

O que mais impressiona é entender que afinal não foi assim há tanto tempo. O verdadeiramente aterrador é percebermos que provavelmente ainda não acabou. Porque a escravatura não é mais do que o ódio que um ser inflige a outro, a arrogância do poder que deturpa a mente. Não é mais do que a hipocrisia de nos escondermos por detrás de “regras” e de “leis” que afinal são elas próprias tantas vezes odiosas, hipócritas e arrogantes. O que nos perturba é lembrar que o dinheiro comprava o homem como se mercadoria fosse, e a cor da pele permitia reduzir o outro à insignificância de um reles animal. Perturba também saber que hoje é possível comprar a cidadania Europeia por meio milhão de euros, enquanto que a morte espera tantos que tentam fugir à pobreza e chegar ao “el dorado” ocidental. Também isso é escravatura.

Mas este é também um filme belíssimo. Uma filmagem cuidada e perfeita, pensada e estudada ao pormenor de cada plano, sem utilização de meios supérfluos, apenas o controlo exímio do enquadramento, o rigor dos movimentos de câmara e a consciente passividade desta, que nos coloca no centro do desenvolvimento da história, do horror da história. Por vezes este horror é apenas o “close up” da face de Chiwetel Ejiofor, que descansa da fuga contínua, pele suada e brilhante, o olhar perdido num horizonte que não vemos, marcado pela incredulidade e a desesperança. Ou o plano geral onde as crianças brincam, num cenário que poderia ser idílico, esquecendo-se por breves momentos, do inferno onde vivem. No fundo nem os planos fixos de uma natureza deslumbrante, desabitada de seres humanos, e porventura menos odiosa e injusta, parecem trazer qualquer consolação. Somos surpreendidos por uma pequena mostra do que pode ser o extremo horror humano, a encarnação suorema de um Mefistófeles que gostaríamos de acreditar que não existe.

Este é um filme sobre a humanidade. E esta é tão bela como aterradora.

*Pubicado, com pequenas alterações, no jornal Oje.

Sobre Bernardo Vaz Pinto

Não conseguiria nunca ser bailarino actor ou cantor sem aquela coragem segura que lhes permite não desfalecer sob os olhares escondidos de qualquer audiência. Prefiro esconder-me sob uns traços gordos de um lápis de lâmina macia, em fundo branco de papel, acarretar a velocidade lenta de uma qualquer construção que se faz colocando pedra sobre pedra. Ou passar tempo a decifrar, agora por detrás destes óculos de vidro, caligrafias de ficção e poesia, que acabam por aparar a nossa existência, e até moldá-la, abrindo portas a novos sonhos e realidades que não vislumbrávamos até à data. A música. Negra, principalmente riscada nos pântanos de new orleans, e no fumo gelado do south side de chicago. O jazz num solo de Baker, o Miles de pés e mãos marcadas pelo tempo e pelos abusos num concerto em Tokio onde a língua falada era mesmo a música. E Bach. E sempre Bach. De resto, pouco mais, entre a vontade de sonhar a vida e o sonho de vivê-la. O olhar da estrada que passou que ilumina o caminho incerto do futuro. A vontade de expelir para fora o ar que nos fica preso cá dentro.
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5 respostas a A Escravatura Aqui ao Lado

  1. Bernardo, o que é terrível é que havia uma razão subjacente, uma racionalidade económica que era ocultada (e, nos momentos a meu ver mais cruéis do filme, é dita e mostrada).

  2. Ainda não vi Bernardo, mas vou ver, sem falta.

  3. nanovp diz:

    Vale mesmo a pena, mas vá preparada, para mim não foi nada leve!

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