A humanidade não se inventa todos os dias

 

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Nenhum de nós inventa sozinho a humanidade. Nem a humanidade se inventa todos os dias, como direi, ab ovo. Há regras e há constantes. Valem para mim, valem para ti e valem para esquimós ou papuas, mudadas umas coisinhas a que chamamos circunstâncias.

Há coisas que, por serem comuns a todos, constituem o denominador comum da humanidade. Para começar, todos amamos. Não só no sentido mais estrito que nos faz despir e encaixarmos o que de um corpo noutro corpo se encaixe, mas nesse outro sentido, igualmente amoroso, de nos aproximarmos de outras pessoas sem lhes querer saltar para cima, só para sairmos a passear juntos, a pescar salmão, discutir um filme à saída da cinemateca ou montar uma armadilha para caçar pássaros. A amizade é universal, como é universal corroborá-la com oferendas, um simples coco, um peixe morto, um quadro da Paula Rego.

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É universal também termos um paradigma que nos guia, que nos permite reconhecer hierarquias, o forte e o fraco, o poder e o impoder. Todos os humanos partilham um paradigma que os autoriza a desenvolver um cálculo para situações que antecipam: dizer bom dia para abordar o outro, desconfiar de uma armadilha, calcular a probabilidade de uma acção ser bem-sucedida, correr riscos. Sem esse paradigma, pigmeu ou cossaco, francês ou maliano, nenhum humano poderia estabelecer uma forma de agir, um comportamento, uma estratégia de sobrevivência.

E é ainda um ponto comum a toda a humanidade julgar as acções alheias. Avaliar se é bom ou mau o que fez o vizinho, o da palhota no meio da selva ou o da penthouse sobre o Central Park, é uma daquelas coisas a que, das estepes à cidade, do deserto do Kalahari à planície alentejana, nenhum humano se pode eximir. Sabemos, por que convencionamos, o que é o bem e o mal e é, por isso, que podemos chorar publicamente as injustiças de que somos vítimas ou saudar alegremente um reconhecimento que nos seja devido.

Há muitas coisas tangíveis que são comuns a todos os humanos, ossos, músculos, cérebro, uma cambada de coisas que se podem espiolhar ao microscópio ou analisar numa TAC, numa ressonância magnética. Mas o nosso património comum vai para além desse cabaz de carne, nervos e fluídos. Há um cabaz intangível que nos liga. Com uma firmeza transversal, esse cabaz intangível viaja por diferentes épocas e pelas suas Zeitgeists, pelas mais distintas geografias.

Será aqui, neste pedacinho nefelibata, que reside o núcleo não-determinista que faz a essência (e a existência) do humano?

Sobre Manuel S. Fonseca

O meu maior medo é que a morte seja tudo às escuras sem se poder ler. Pouco interessa deixar de ser humano, desde que não deixe de ser leitor. Ler é do mais feliz que tenho. Até porque escrever é triste.
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8 respostas a A humanidade não se inventa todos os dias

  1. Mario diz:

    A resposta esta na foto, a dimensao humana esta no pecado, em todos eles, e quem nunca pecou… 🙂

  2. Penso que sim, esse bocadinho inho é a génese de tudo, até do cabaz de nervos, carne, fluídos. Gostei muito.

  3. A humanidade foi à lua dar passos ou outra coisa qualquer:

  4. nanovp diz:

    Provavelmente Manuel, nesse pedacinho que é a vontade de viver que todos temos…

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