Amália e o medo

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Nunca, nos dois anos que já levo de Escrever, trouxe a Triste Amália a cantar para nós. Há dias, a Eugénia, trouxe-a, aqui, por empréstimo. Por mais surpreendente que seja esse projecto de assim se cantar Amália – e é -, eu tenho a certeza de que não desiludirei a Eugénia se disser que não há projecto, por mais inteiro que seja, que toque a fímbria do xaile, já não digo dela, mas sequer de um fado dela.

Andava eu a pensar isto, que é o que já penso desde que, em 1970, comecei a a amar mesmo Amália com a improvável idade de 17 anos, quando me caiu em cima outro “projecto”. Mordi a língua. Júlio Resende, um pianista que é bom de mais para eu estar agora a afiambrar-lhe adjectivos, fez um “projecto”, mas só o fez porque ressuscitou Amália.

Ela volta e, num vai-vem de solidão,  dorme com ele. Medo. “Medo” é um dos fados mais angustiantes de Amália, convívio doméstico com a morte, silêncio sufocante, música que se ouve com os  olhos tão fechados como os olhos que se fecham num caixão.  Todo esse assombroso e apaixonante medo volta na voz ressuscitada de Amália. O piano de Júlio Resende é um rumor, rio subterrâneo, o lençol órfico onde Eurídice se embrulha do lado de lá da “ponte do fim”.

E quem é que, ouvindo, não gostava até de matar-se!

Sobre Manuel S. Fonseca

O meu maior medo é que a morte seja tudo às escuras sem se poder ler. Pouco interessa deixar de ser humano, desde que não deixe de ser leitor. Ler é do mais feliz que tenho. Até porque escrever é triste.
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12 respostas a Amália e o medo

  1. Paula Santos diz:

    Disco lindo…feito de rumores sim…arrebatadores. E quando os olhos se fecham não apetece voltar a abri-los. Significa que o disco acabou. Vamos ouvir de novo?

  2. Nunca escrevi sobre Amália, só em volta dela, e ao longe, pelo tanto que a amo. Nem sequer tenho memória de não ter tido Amália, foi uma omnipresença – também na voz da minha avó. Este é um fado terrível e um piano belíssimo. Bem trazido, até porque uma pessoa tem de matar-se de vez em quando.

    • Eu demorei mais a gostar. Vivia numa Luanda solar de mais para que coubesse o fado na minha adolescência. E um dia, no dico que gravou com Vinícius, bateu-me forte. Forte e lindo.

  3. António Barreto diz:

    Eis a razão porque, compulsivamente, relativizo todo o gato(a) pingado(a) que por ai aparece a cantar o fado ou o que quer que seja.

  4. riVta diz:

    preferia morrer sem medo

  5. Leonor Travassos diz:

    Lindas as tuas palavras, Manel triste o fado, sublime, o piano!

    • Manuel S. Fonseca diz:

      Leonor, tens de ouvir as outras coisas do Júlio Resende. Um mar de coisas boas.

  6. nanovp diz:

    Simplesmente maravilhoso! E não senti medo nenhum…

  7. João Guerra diz:

    Já agora, e uma vez que ninguém o fez, faço eu uma referência ao autor do poema, o grande poeta Reinaldo Ferreira. Este fado é Amália… E é também, extraordinário, o piano de Júlio Resende, mas não seria nada sem o poema de Reinaldo Ferreira.

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