Da Frente Para Trás

Gennadiy Koufay

Gennadiy Koufay

2014

Ao despojamento íntimo chegou a mulher atual. Na pele, nada protege as margens que o rendilhado pequeno não cobre. Airosa sensação do nada que à própria tenta! Minimalistas por fora, mais complicadas que nunca por dentro. De tal modo elaboradas (baralhadas?) que 1/5 do bolo masculino lida mal com o desejo e a respetiva concretização. O Relatório sobre a Situação da População Mundial constata que Portugal tem uma das menores taxas de fecundidade mundiais, o que na prática significa que as mulheres portuguesas estão entre as que têm menos filhos. Neste relatório, as Nações Unidas admitem que “a falta de mão-de-obra ameaça bloquear as economias de alguns países industrializados”. As baixas taxas de fecundidade significam menos pessoas a entrar no mercado de trabalho, numa tendência que põe em causa o crescimento económico e a viabilidade da segurança social. A ONU diz que nalguns países mais ricos, a falta de jovens «significa incerteza sobre quem vai cuidar dos idosos e sobre quem pagará os benefícios dos mais velhos».” Sem atender às razões, esta é uma perspetiva utilitária da mulher enquanto parideira. Retrocesso. Outro: persistem diferenças entre os géneros nos prés frutos do trabalho. Outros ainda: desemprego, cinto económico que deixou para trás o último furo no aperto que homens e mulheres suportam, obrigam à emigração de portadores de canudos superiores e ao retorno da saída para a «estranja» dos indiferenciados nas habilitações literárias.

H. Sorayama

H. Sorayama

1994

À vontade na sexualidade, prestígio do corpo, magreza como valor estético, abordagem liberal nas relações dos homens e das mulheres. Elas conquistam maior terreno social, eles surpresos com os avanços femininos nos seus coios tradicionais. Os do masculino perdem nas universidades, na prestação de serviços e no domínio familiar; hesitam como prima-dona a quem a figurante ameaça roubar papel e protagonismo. Viram-se para a própria cas(c)a, aprendem a fruir de modo mais solto e gracioso dos afetos. Aventuram-se na ternura exposta. Chorar sim, se for esse o sentir.

Robert McGinnis

Robert McGinnis

1984

Elas tomam, maioritariamente, a iniciativa do divórcio, decidem quando, como e com quem geram filhos. Fazem amor e odeiam a guerra. Das flores nascera símbolo de paz, continuava, continuou, o tempo de delírios comunitários induzidos por substâncias várias. O corpo tenta, seduz, arrebata, mas persistem limites que a moral convencionada e os preceitos sociais injectaram como adição. A «roupa interior» diminui em tamanho sem cobrir o formatado desdém pelo estabelecido. Lá por fora, houvera Woodstock num descarado 69 e o pisar da Lua com repercussões tecnológicas também nos materiais e nos servidores automatizados das tarefas domésticas; por cá, na mesma época ou à volta dela, emigração maciça de indiferenciados, na literatura, o revolucionário e bíblico para a sociedade mais atenta “Novas Cartas Portuguesas” escrito pelas que viriam a ser conhecidas como “As Três Marias” – Maria Velho da Costa, Maria Isabel Barreno, Maria Teresa Horta. Nos setenta e meio, o sonho de igualdade imediata no casulo e no trabalho feminino, a posse de máquinas de lavar trapos e louça, televisões a rodos, micro-ondas anos depois.

Gil Elvgren

Gil Elvgren

1954

Ousadas? Em Portugal, nunca, salvo as «delambidas» de intimidade descarada comummente assim rotuladas pelas mulheres «sérias»(?) que, podendo, seriam tão «delambidas» quanto elas. Corpo impressivo, curvas exuberantes, cintura de vespa não isenta do similar de espartilho. Cinto de ligas, cintas, sutiãs inteiros, vestidos rodados e soquetes ou saias esticadas revelando desafiadoras nádegas. Para elas, as «delambidas», aquelas que obliquavam o olhar aos maridos das «esposas modestas». Estas, aos trinta, pelo aspeto das vestimentas, eram velhas sensaboronas, passadas, mães de família com rolos na cabeça ou apressadas na rua com sacos de compras na mão. Ele saía pela manhã. Dela a retaguarda familiar. Pelo final da tarde, ele demita-a da função, exceto da cozinha e do passajar, no ato de meter a chave à porta. No dia seguinte, mais do mesmo. Pelo mundo, os fifties impavam no maravilhoso(?) mundo dos reatores nucleares.

Autor que não foi possível identificar

Autor que não foi possível identificar

Belle Époque

Espantoso período do avanço cultural e tecnológico europeu. Surge o telefone, o telégrafo, a primeira fábrica Ford e o primeiro dirigível de Santos-Dummont. Depois, a Belle Époque foi iluminada pela lâmpada elétrica, pelos filósofos nietzschianos e pela sexualidade abordada por Freud. Conheceu a arte da imagem através do cinema, a arte do som através da rádio, a arte de fotografar através da cor, a arte da pintura e da música através dos impressionistas. O espírito europeu estava elevado e com ele todos os sentidos que instigavam a produção cultural. À mulher era permitida a curiosidade e o acesso à formação intelectual superior. Possuía espírito incendiado e corpo confinado a pouco mais que a procriação. A «roupa de baixo» era grossa para a mulher comum, grande e feita à mão.

Pablo Picasso -Les Demoiselles d'Avignon(1907)

Pablo Picasso -Les Demoiselles d’Avignon(1907)

Intemporal

Arenga para idos e presente – evolução histórica, seres humanos, o desejo, a união. Novo ser depois? Manda o acaso, as tendências sexuais, a guerra e a paz, o bem-estar económico, social e da família. E la Nave Va.

Nota – texto adaptado do que teve publicação em 2011-10-27 no http://sempenisneminveja.blogs.sapo.pt/

Sobre Maria do Céu Brojo

No tempo das amoras rubras amadurecidas pelo estio, no granito sombreado pelos pinheiros, nuas de flores as giestas, sentada numa penedia, a miúda, em férias, lia. Alegre pelo silêncio e liberdade. No regresso ao abrigo vetusto, tristemente escrevia ou desenhava. Da alma, desbravava as janelas. Algumas faziam-se rogadas ao abrir dos pinchos; essas perseguia. Porque a intrigavam, desistir era verbo que não conjugava. Um toque, outro e muitos no crescer talvez oleassem dobradiças, os pinchos e, mais cedo do que tarde, delas fantasiava as escâncaras onde se debruçaria. Já mulher, das janelas ainda algumas restam com tranca obstinada. E, tristemente, escreve. E desenha e pinta. Nas teclas e nas telas, o óleo do tempo e dos pinceis debita cores improváveis sem que a mulher conjugue o verbo desistir. Respira o colorido das giestas, o aroma dos pinheiros nas letras desenhadas no branco, saboreia amoras colhidas nos silvedos, ilumina-a o brilho da mica encastoada no granito das penedias.
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5 respostas a Da Frente Para Trás

  1. Mais où sont les femmes d’antan?

  2. nanovp diz:

    O que mudou afinal? Tudo ou um pouco de nada! E ainda bem…a woman is a woman is a woman….

  3. Pedro Bidarra diz:

    Isto está bonito, está

    • Maria do Céu Brojo diz:

      Se for aos links nos comentários ao “Mais où Sont Les Femmes D’Antan?” maior propriedade ainda no que escreveu.

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