Dentes de Terra

Sem título. Pedro Norton, 2008.

Sem título. Pedro Norton, 2008.

Tenho dentes de terra e estão ávidos de ti. Da tua chuva, da tua seiva, da resina que há muito secou no que resta do velho tronco cinzento que eras tu. Estou arado por dentro. Sulcado, revolvido, remexido até às profundezas de mim. Dói-me este corpo imenso e negro que foi pasto, foi ventre e foi sementeira. Dói-me de verões inclementes e de invernos rigorosos. Dói-me a seca profetizada que me fez poeira estéril. Dói-me o vento que se fez senhor do que resta de mim.

Na imensidão plana que ainda sou, choro, horizontal, a tua verdura. Choro-te as raízes, o musgo e as noites frescas de Maio. Choro o choro mansinho das tuas folhas de bétula e choro os ramos elegantes que eram, para mim, todos os bailados do mundo.

Tenho dentes de terra e estão ávidos de ti. Mas a alma circular que pontua as minhas estações não me deixa sonhar. Sei bem, com a força telúrica dos que sempre foram, que não voltarás. Que as árvores que morrem de pé não têm paraíso. Tenho dentes de terra e estão ávidos de ti.

 

Sobre Pedro Norton

Já vos confessei em tempos que tive a mais feliz de todas as infâncias. E se me disserem que isso não tem nada a ver com tristeza eu digo-vos que estão muito, mas muito, enganados. Sou forrado a nostalgia. Com umas camadas de mau feitio e uma queda para a neurose, concedo. Gosto de mortos, de saudades, de músicas que nunca foram gravadas, de livros desaparecidos e de filmes que poderiam ter sido. E de um bom silêncio de pai para filho. Não me chamem é simpático. Afino.
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12 respostas a Dentes de Terra

  1. É sempre bonita a linha de horizonte fordiana. E aqueles ramos que estão para ali, dramáticos, entre a raiva e a reza. Grande imagem, Pedro.

    • Pedro Norton diz:

      obrigado. nunca tinha pensado que serra d’Arga tinha um horizonte fordiano. bem observado. E obrigado.

  2. Paula Santos diz:

    Grande imagem. Grande texto. Dorido e cheio de ontem.
    Que a avidez lhe dê todas as respostas.

  3. cc diz:

    É um belo texto, parabéns.
    ~CC~

  4. Estou arado por dentro é uma frase do caneco. Pode começar-se um romance por ela. Podia jurar, e mentia, que isto é um México que cá sei.

  5. nanovp diz:

    Arrepio! Podia jurar que a terra mexia ali em cima…

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