Deus quis

DEU-ME ESTA VOZ A MIM
Ontem li duas ou três páginas da militância poética
de Ruy Belo, em Cristina Campo predestinação.
E o grande mistério de Herberto Helder.
E do dia-a-dia levantado em verso
por Manuel António Pina.
E do fogo de Camões a correr o ouro frio
para dentro de Pessoa. Fui ver mais. A descarnação de Larkin
e o esgar e a paixão em forma de O´Neill. Até Joyce
e o seu desgosto igual ao meu diante da partida
dos barcos de imigrantes à míngua de país. Aviões.
Tudo escorreito. O pensamento limpo nas
páginas, livros coração de gente.
Fui lavar-me neles. Ver que não estava doida.
E isto porque fiquei com a cagança
do que antes tido lido agarrada aos dedos.
Pessoas grandes da literatura.
Homens.
Quero dizer, pessoas de bem, pensava. E em algum sítio
hão-de ser, na parte mais bestial,
lá pelas entranhas hão-de ser, no esqueleto,
não conheço um fémur com vícios
nem se foi fracturado, pode arrepiar-se depois,
mas isso é a sabedoria meterológica do osso.
Não são. Ilusionistas. Porque escreve, como,
por quem, para quem. Fiquei cheia de vergonha.
Ao que faz, respondo, escrevo,
pois se sou escritora e poeta escrevo, que havia
de fazer, carpintaria?, não sou é cá ilusionista.
Isto de intangibilidades,
espectros, grupetas, merdas de cemitério
ultra-romântico ou o reverso, uma escola de brancuras
de meias japonesas dentro da domesticidade lisboeta,
ser clean, minimalista, ser um atrofio de bonsai.
Gente não é bonecos articulados.
Coração de gente não se escreve em pinoquiotês.
Que vergonha. O que faz? Que vergonha.
Aqui afirmo:
escrevo sem qualquer influência, sem qualquer pertença tribal,
Deus é o Verbo, eu estou no Verbo, recolho as palavras,
a vida basta-me, escrevo.
Não sou ilusionista, não ponho enfeites na língua,
não me cabem nas frases, só na árvore de Natal,
e não sou actriz, não sou de palco, não dou show,
sou de mesa e cadeira,
portanto, sento o rabo na cadeira diante da mesa,
olho para a folha a olhar para mim e escrevo.
A vida basta-me. Quando o cão era novo e respirava
sem dificuldade, dormia de barriga para cima,
as patas flectidas, parte do branco dos olhos a ver-se,
uma lindeza mediúnica, ressonava grosso, todo do sono,
e aquilo dava-me uma paz tal que nenhum restolho de asas de anjo
me fez alguma vez falta.
A vida basta-me.
A tua voz a deslizar no caracol do ouvido, de manhã, basta-me,
a abrir uma janela à luz e ao trânsito no meio escuro dos lençóis quentes,
um búzio para a eternidade
a tua voz no dia aberto a beijos
que a melhor coisa do mundo é estar nu com quem se ama.
Passou. Que pena.
Tudo quanto passou me basta.
Quem passou basta-me. Os meus mortos são meus,
a minha infância é minha, hoje é meu, todo o povoamento da existência
que tive e me tiveram, pessoas, lugares, imaginações,
livros e horas, é meu.
Ter sonhado esta noite que ao lado do mercado velho
havia um matadouro desactivado basta-me,
e contíguo a este,
onde antes tinham vivido funcionários de cutelo na mão,
um edifício setecentista estava a ser recuperado,
e o homem tão brioso do seu restauro mostrava-me
a talha do travessão de uma cadeira e quando me aproximava
explodia de luz porque entrava num imenso mural
de Rafaello pelo manto da Madonna e ao voltar,
pela mesma seda por onde entrara,
dourada na talha do travessão da cadeira,
saía maravilhada daquele ofício de restaurador,
e com as casas pequenas ao lado do matadouro
onde a arte estava viva dentro das coisas,
ali rente à memória do sacrifício animal, nosso alimento,
mas seguia adiante porque era o meu caminho
seguir adiante subindo aquela larga rua
despreocupada de não ter casa. Não ter casa basta-me.
Sonhar enquanto durmo basta-me.
Começar o dia neste poema bastou para a minha taça transbordar,
para agradecer tanto por mais uma noite e mais um sonho,
por mais um dia e mais um poema,
pela taça a derramar a bondade do bem
e a bondade do mal
– Deus quer dar-me e eu aceito –
Escrevo porque é o meu dharma, diz Buda,
porque é a semente que Deus plantou no meu coração,
diz a Bíblia e sendo católica e meditativa,
escrevo porque digo faça-se a Tua vontade que é igual à minha.

Deu-me esta voz a mim, de Amália Rodrigues, em Foi Deus
my cup runneth over, in Psalm 23, KJV

Sobre Eugénia de Vasconcellos

Escrever também é esta dor amantíssima: os lábios encostados à boca do silêncio, auscultando, e nada, esperando dele a luz que beije. É assim, pelas palavras se morre, pelas palavras se vive.
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21 respostas a Deus quis

  1. Mario diz:

    Hoje a noite nao e so talento, e luz e calor, e fogo. Hoje esta belissima. I wish…

  2. Bela cavalgada. De quem só sabe ou só gosta de, pelas pradarias, ir a galope.

  3. Já me ri. A fadista, o cavalo e a chama agradecem: obrigada.

  4. riVta diz:

    vou deixar aqui um espaço
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    um lugar que você merece

  5. Mario diz:

    Ontem era fogo hoje cai duma laranjeira e torci um joelho. Estou de canadianas. Foi Deus que quis. Bolas

    • Sabe a história do monge taoista que vivia ao lado da família de um pobre agricultor? O filho do agricultor, sua única ajuda, partiu uma perna também. E o pobre agricultor queixou-se ao monge: já viu a minha vida desgraçada? E o monge respondeu-lhe: talvez. Passada uma semana os soldados do imperador chegaram à vila e levaram todos os homens em idade de combater. Como o rapaz tinha a perna partida, ficou. E o velho para o monge: já viu a minha sorte? E o monge, talvez.

      Espero que as laranjas sejam doces.

      • Mario diz:

        Ontem o meu carro foi rebocado tambem. Estou a tentar perceber o lado bom disto. Ate agora
        considero apenas que foi um dia de cao. Com a baixa recebo uma treta. As laranjas sao optimas (eram as dos ramos mais altos) e as suas palavras tambem. Thanx.

        • Não ligue meia pevide ao que lhe vou dizer:

          1. as laranjas quando estão boas, não dizem colhe-me. Estão em tempo, o tempo mostra-se no volume, na cor e ao tacto.

          2. ficou de canadianas – impedido de grandes corridas.

          3. rebocaram-lhe o carro – não fará grandes distâncias.

          4. bom ou mau, nem sempre se sabe.

          5. eu, no seu lugar, ficava quieta e dizia: ok, já percebi, é para parar. Merci. E agora? E esperava.

  6. Pedro Bidarra diz:

    Há gostar e não gostar. Há sentir e não sentir, chorar e não chorar. Meditar. tudo isto se faz por um poema. Raramente me lembro de concordar. I.e. concordar com um poema. Parece não ser um verbo que para apreço poético. Mas concordo, que hei-de fazer. Concordo com um poema.

    ps: ainda não desistide tentar ser carpinteiro; a sério, ando a aprender como há dois anos fui aprender o alemão que nãos sabia. Querofazer uma cadeira, talvez para sentar o rabo e escrever

  7. Concordo muito com a poesia, tem-me sido uma boa conjugação, é uma afinidade, um andar ao lado com versos e as pessoas que os escreveram, uma companhia.

    Ps: faça a cadeira, Pedro. Eu, mais cedo que tarde, hei-de aprender aquele alfabeto da música nem que seja para martelar o atirei o pau ao gato.

  8. zuogmi diz:

    gosto

    triste é deus, eu sou alegre! 🙂

    como chegou a zuogmi?

  9. nanovp diz:

    Siga-se a Sua vontade, e não pare. Nunca!

  10. “escrever é o acto de marcar, e de certa maneira, todos escrevemos os actos da nossa vida.
    a poesia é a mais completa e profunda reflexão sobre a existência do homem.”

    miguel.luaz

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