E agora, o otimismo (a contragosto)

 

 

Há livros que não deveriam ser escritos. Ou, em alternativa, que um tipo como eu não devia saber que existem, a fim de poder continuar a sua saga (queria dizer narrativa, mas o outro roubou-me a palavra) que compara os atuais tempos aos da queda do Império Romano, tal como Edward Gibbon no-la contou.

Otimista Racional

Mas surge o 5º Visconde de Ridley (DL, FRSL, FMedSci entre outros títulos e distinções) e escreve um livro chamado ‘O Otimista Racional’. E eu, ou por ser parvo, ou por ele ser bom, ou pelas duas coisas, vá de concordar com o Visconde, que para mais foi Chairman do Northern Rock Bank (aquele nacionalizado na velha e pérfida Albion, porque não se aguentou nas canetas) depois de ter sido editor de Economia da revista The Economist (o que me dá a esperança de ainda poder vir a presidir a um banco que acabe por falir).

O Otimista Racional, que entre nós está traduzido e publicado na Bertrand, é um livro interessante. Eu não sei onde o Visconde vai buscar tanta informação e sei que há gente a critica-lo por não ter uma organização científica do book . Porém, basicamente, ele parte de uma ideia fantástica: tudo o que fez o homem evoluir foi o… comércio e os mercados. É isso, diz-nos o moço, que torna o ser humano único. 

O homem especializa-se (eu faço setas, tu fazes roupas, tu caças mamutes, tu arranjas abrigos para vivermos) num cérebro coletivo e cooperante que apela às trocas (ao mercado ao comércio) ao contrário dos outros animais que têm de fazer tudo por eles próprios se querem comidinha, abrigozinho e uma espécie de anzol para os peixes ou de palhinha para o mel das colmeias. Já o Simão, mais vulgarmente conhecido por macaco nu, ganha esta especialização de fazer aquilo em que é mais desenvolto e trocar o que faz por bens que ou não sabe ou demora muito tempo, ou tem dificuldade em fazer, seja por inabilidade, seja por falta de matéria prima.

Isto contraria Rousseau, Marx, Ehrlich, Malthus, Marcuse e toda a gente que lemos, mas o Visconde é bem capaz de ter razão. É por isso que ele se diz otimista – a globalização, com a generalização do comércio e das trocas só pode trazer benefícios. Mais – diz ele – o ambiente está a melhorar (na verdade as descrições de Lisboa e da sua sujidade no séc. XVIII parecem bem piores do que hoje, assim como o smog da Londres do séx. XIX), a ameaça climática é treta (tem várias páginas sobre isso) e todo este pessimismo advém de uma falácia que é a seguinte: “o futuro será semelhante ao presente e ao passado”. Na verdade, houve quem, no passado, dissesse, por fenómeno igual, que o telefone seria coisa de minorias pois, para metade do mundo telefonar a outra metade tinha de mudar cavilhas; ou que Nova Iorque não podia ter mais de três milhões de habitantes, por causa da bosta de cavalo, devido a este tipo de raciocínio estático. Para não falar da falta de comida que Malthus previu com menos de metade da população atual ou dos contágios que Ehrlich previa fatídicos…

Claro que o Visconde irrita a matilha politicamente correta. Desde logo porque dizem que ele despreza a ciência e a revolução industrial como avanços significativos na história da humanidade – mas é falso. Ele coloca uma e outra como consequências das necessidades de trocas. Ou seja, muda o que tem sido considerado causa, colocando-a como consequência, como a corrente da Nova História fizera com o Materialismo Histórico marxista. A única crítica que Matt Riddley leva e, quanto mim,  não tem remissão é o desprezo ou quase insignificância que confere à linguagem e à comunicação como motor do tal comércio e da tal troca que defende ao longo de mais de 500 páginas (nas quais se repete infinitamente).

A especialização que leva o homem ao engenho de trocar e partilhar objetos, artefatos e conhecimentos tem variações em dó menor em barda (em certos capítulos que merecem o epíteto de chatos). Desde a universidade que fez um programa com blocos de cor (em que cada jogador tinha mais facilidade em fazer um cor do que outras e ao fim de uns tempos já se estava a especializar e a trocar com jogadores que tinham facilidade noutras cores, pois o objetivo era ter várias cores) até à idade da pedra, o Visconde vai a todas para assegurar que temos, de facto, um cérebro coletivo na espécie que nos tem feito andar para a frente e dominar o mundo.

Mais politicamente incorreto do que ele só  Thomas Sowell, o economista e filósofo americano que escreveu “Economics Facts and Fallacies” (factos económicos e falácias) que me parece só haver em inglês (comprei no Kindle para iPad) que arrasa o pensamento dominante dos nossos economistas de referência. Só para os deixar com curiosidade, direi que ele consegue provar que as mulheres (nos EUA) em igualdade de circunstância de emprego com os homens, ganham mais do que estes, ao contrário do que indica o chamado senso comum. Ou esta frase que talvez seja a minha preferida, em relação à inesgotável discussão sobre o Serviço Nacional de Saúde: “Independentemente do que se fizer para promover a Saúde, poderá ser sempre feito mais” Ou,  “Independentemente do que se fizer para aumentar a segurança, poderá ser sempre mais”. Por isso, afirma, as políticas tão em voga que prometem mais saúde e mais segurança nunca colocam limites à despesa ou sequer consideram alternativas sobre o uso dos recursos limitados existentes. Esta retórica é o que tem conduzido as sociedades ao aumento do poder e da despesa dos Estados e Governos.

Pois é, meus amigos, a leitura é subversiva. Já era quando eu era novo e lia Marx. Continua agora a sê-lo com alguns Viscondes e certos Filósofos.

Como dizia o outro, está escrito!

 

Sobre Henrique Monteiro

Nunca fui um sedutor, embora amasse algumas mulheres hospitaleiras. Nunca fugi de um combate, mas sempre invejei quem, ao abrir as portas de um saloon, provoca pânico entre os bandidos. Tenho nas veias sangue jacobino, mas odeio revoluções e igualdades uniformizadoras. Sou pacato e desordeiro, anarquista institucional, maestro falhado, cantor romântico e piroso a quem falta tom. Sem nunca me levar a sério - no melhor sentido da palavra, acho que apenas sou um homem bom (e barato).
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5 respostas a E agora, o otimismo (a contragosto)

  1. Mario diz:

    Nao li o livro por isso posso estar a ser injusto. A questao da especializacao e obvia. O problema e quando nao se faz nada melhor que os outros. E ainda maior quando se tem um espartilho civilizacional e nao se faz dumping social, dumping ambiental. As regras nao sao iguais para todos. Assim nao da. Mas e na evolucao da economia de mercado para o capitalismo que esta o problema. Ha as externalidades. As desigualdades. Quando se ve a actuacao das multinacionais nos paises sub-desenvolvidos, quando se ve a actuacao dos mercados, a fuga de capitais para off-shores em vez de serem reaplicados na economia real, pensamos, que merda de sistema e este? que narrativas e que podem ser construidas para o justificar? seremos todos tontos?

  2. Confesso que fiquei curiosa com o visconde. Mas creio que o que faz o homem evoluir é o desejo. E deseja-se o que não se tem e se recorda ter tido: tudo. Ou seja, e isto também não é politicamente correcto, o que faz o homem evoluir é a lembrança de Deus – qualquer que seja o nome que se lhe dê.

  3. António Barreto* diz:

    Valorizo os “dissidentes”. Fiquei curioso em particular pela questão climática, cujas teses correntes estão bem longe de me convencer. A luta do Homem pela sobrevivência e superação, também designada por progresso; tecnológico, económico e social, transporta sempre componentes de decadência que bem poderão conduzir à implosão social quando, por efeito cumulativo, sobrelevarem as restantes. Quanto Estado Social, relativamente ao SNS, lembro que em 93 tinha um custo de 3,5 MME e em 2012 de 9,5MME (salvo o erro). Com a educação e SS aconteceu algo idêntico…e parece que não chega!

    Sweet Land é o título de um filme que ontem revi, do qual emergem de forma indireta, mas poderosamente, algumas destas questões. O “progresso”, paradoxalmente, está a afastar-nos do essencial conduzindo-nos ao esquecimento de quem somos.

  4. Curioso. O melhor livro do Matt Ridley é, de longe (li três, amostra politicamente correcta) o “Genome: The Autobiography of a Species in 23 Chapters”. Atrevo-me a asseverar que o homem, que foi editor de ciência durante séculos, é um arrependido das humanísticas e percebe tanto de economia e mecanismos de mercado como os irmãos Karamazov de solidariedade.

  5. nanovp diz:

    Concorde que não estamos tão mal assim como humanidade, e o fim do mundo não será capitalista…

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