E René criou a mulher

 

 

magritte-600“La Tentative de l’impossible”, René Magritte, 1928

Tirando o espelho e outras superficies dadas à reflexão, é impossível sermos, em simultâneo, aquele que vê e aquele que é visto, a não ser como representação. Diante dos nossos olhos, temos duas figuras suspensas entre a arte e a vida – o pintor e a modelo. René e Georgette (ou serão Pigmalião e Galatéia, versão pintura?) ligados por um fio de luz (reparem como a luz é uma das cores que o pintor tem na sua paleta). O criador e a criatura são as testemunhas mudas do acto da criação. Na linha misteriosa que separa a realidade da sua representação, nenhum quadro está acabado. Pelo contrário, tem a vida toda à sua frente. Este, por exemplo, procura nas vossas palavras a tentativa possível de continuar a ser pintado. Despachem-se. Já viram há quanto tempo ela está à espera do seu braço esquerdo?

Sobre Maria João Freitas

Graças às palavras, às vezes sou Alice e faço perguntas sem parar. Outras, sou a namorada (platónica, esclareça-se) de Wittgenstein. Quase sempre, penso que tenho a sorte de viver da (e na) escrita. Porque escrever pode ser triste, mas é melhor que ser feliz.
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3 respostas a E René criou a mulher

  1. ah! vai dar pano para mangas …..
    Boa!
    😛

  2. Pedro Bidarra diz:

    que bela e difícil escolha, MJ

  3. nanovp diz:

    Vai dar texto amputado Maria João…

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