Huc ades, o Galatea

 

 

Para responder ao desafio que a Maria João deixou aqui.

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Ninguém nasce dentro de um romance minhoto e é pena. Na hora de dobar a história eis que acorreriam tios literários que fumavam cachimbo e liam narrativas de viagens ou tias solteiras que tinham envelhecido enlanguescidas de melancolia e sem outro conhecimento da brandura do lume além do ponto do açúcar. Também lá viria uma prima transviada por um feirante moreno de rosto sulcado por um gilvaz e que todos ignoravam como se nunca tivesse sido nascida e baptizada com o promissor nome de Maria da Ascensão. Isto de viver uma pessoa no meio de gente de destino baço não ajuda ao imaginar por não ter modelos de onde espelhe meia de dúzia de personagens. Lamentei-me disso toda a vida e quando deixei o cartório, disposto a dar-me ainda uns anos de muito sossego e alguns ares do mar, intentei recomeçar um romance que me ficara a meio num desconsolo de figuras inacabadas e pontas soltas. Forcei-me à imaginação mas nunca houve resultados dessas tardes em que percorri as ruas de cabeça baixa e mãos atrás das costas. Às vezes na calçada havia vidros partidos, pedaços pequenos que me fulguravam de súbito ao caminho e eu julgava ver nessa cintilação repentina uma premonição de epifania para breve. Mas ela não se dava e por me faltar o dom do criador, nem ter de onde modelar, nunca o acabei.

No Verão de 1928, que prometia trovoadas e vendaval, acolhi-me ao convite reiterado de uns amigos e por lá demorei o resto de Julho. Não se chamava Georgette mas bem que podia, inesperada que tinha vindo, vestida de popelina às riscas, as abas do chapéu a dobrarem-se com o vento. As raparigas têm para com os homens velhos uma cortesia de que é uma forma de sedução em que temperam o propósito e o desafecto para maior eficácia. Estendia-me Virgílio para lho traduzisse e dobrava-se para a frente, olhando o verso onde eu fixava os olhos para os desviar dela. “Anda cá, ó Galateia, que prazer afinal há nas ondas?”. “ Lê assim, sem dicionário?” Pretextava modéstias e dizia-lhe que o texto era conhecido. Creio que disse 1928, no Verão, não foi? Deve ter sido, não estou bem certo. Que havia vento, sim. Em todo caso bastará ir rever a cronologia, se fizerem muita questão. Creio que ela se esforçou para que eu pensasse que lhe tinha sido o primeiro Verão, mas não creio que o fosse. Parecia-me nessa altura uma estátua branca e lisa como a superfície de um espelho e eu acreditava nesse pressuposto de ingenuidade porque ele era mais conforme ao delírio pigmaleónico que me acudia às mãos. Inventei-lhe uma língua, quis-lhe gestos e trejeitos, saberes e sabores. Depois Georgette aborreceu-se e o que eu vi foi uma Ana Margarida cansada do Verão. Estrangulei-a devagar e ela caiu dobrada no soalho, flor colhida, tão literária que cheguei ainda a pensar em ir buscar caderno onde tomar umas anotações. Mas urgia desfazer-me do corpo e pensei que desmembrá-lo seria mais fácil. Comecei pelo braço.

Sobre Ivone Mendes da Silva

Entre lobos e anjos me habituei a escrever. É talvez por isso que, para além de asas e de uivos, as palavras me tropecem e não encontrem sozinhas o caminho das folhas. Nessas alturas, peço para elas a bênção da tristeza, musa de sopro persistente, que triste me faz e a acolhedoras mesas me senta.
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9 respostas a Huc ades, o Galatea

  1. Está mais do que demonstrado, Ivone: isso de nascer dentro de um romance minhoto ajuda, e de que maneira, ao imaginar. Bela maneira de te desfazeres de um corpo.

  2. Mario diz:

    Ou tera sido uma forma de se reinventar a si propria?

  3. riVta diz:

    Ivone Agatha da Silva
    😀

  4. nanovp diz:

    Na literatura podemos assassinar sem que ninguém nos acuse de crime. Desde que se respeitem as palvras…o que faz tão bem aqui Ivone…

  5. Um braço é sempre um bom sítio para se começarem as erínicas tarefas.
    (E a propósito da sua bela primeira frase, Ivone, tenho para mim que há pelo menos uma pessoa real, física, que nasceu num romance: a Agustina)

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