O botão

hk_star_ferry

Hugo chegou ao cais de Sheung Wan vindo de uma longa semana de reuniões em Macau. Não era a primeira vez que estava em Hong Kong mas era a primeira vez que ia ficar em Kowloon, na animada Nathan Road. Tinha reservado um quarto no The Mira, mesmo em frente a Kowloo Park no meio da luz e das lojas, da agitação colorida e consumista de Hong Kong. Depois de tantas reuniões e pequenos almoços em hotéis de 3 estrelas era altura de se dar a um pouco e luxo. A verdade é que não era ele quem pagava e por isso nada lhe pesava na consciência. Também era a primeira vez que apanhava o Star Ferry. Nunca tinha feito a travessia do Victoria Harbour a bordo do famoso ferry verde que liga a ilha a Kowloo. Hugo tinha três dias em Hong Kong antes da próxima reunião. Depois voltaria para Lisboa.
Quando se sentou no convés inferior do Meridian Star, um convés aberto aos cheiros quentes e húmidos do mar da China, e antes de fixar a sua atenção na paisagem, Hugo olhou em volta. O ferry ia cheio de gente que voltava da ilha. Nas primeiras páginas dos jornais, abertos por chineses indiferentes ao charme da travessia, estava a fotografia de Edward Snowden.

Segundo os jornais Edward Snowden continuava em Hong Kong escondido e a fazer revelações sobre a extensão das escutas e da bisbilhotice da NSA e dos Estados Unidos. Aparentemente há gente a escutar e a ler tudo o que toda a gente escreve e diz. Os espiões de agora, nerds vingativos, espiam, escondidos atrás de ecrãs, todos os líderes o mundo: governos, presidentes, empresas, empresários e cidadãos comuns. Inventou-se o “botão” que permite espiar e quando se inventa um botão carrega-se. Um botão, uma vez inventado, tem que ser carregado.

Para além de Hugo, só outra mulher sorvia os cheiro e as vistas do porto de Victoria. Chamava-se Anna e era bonita, ainda que a beleza estivesse disfarçada pelo cabelo apanhado e pelas grandes olheiras certamente ganhas em intermináveis reuniões. Tinha um rabo grande e redondo e umas pernas altas e magras até às coxas. As feições eram bem desenhadas e tímidas; cara de boa menina, sem maldade. A idade era indefinida mas nos trintas, seguramente. Como Hugo, levava atrelada uma mala de rodas e vestia-se como se tivesse saído do avião ou de uma reunião. Também Anna era uma expatriada cujos périplos pelo oriente a afastavam de casa semana sim, semana não. Se fosse uma atriz seria a Drew Barrymore, pensou Hugo.
Quando saiu do ferry, Hugo puxou a sua pequena mala pela Nathan Road até ao The Mira. À sua frente seguia Anna, também puxando a sua pequena mala. Hugo seguiu o rabo de Anna até o perder de vista no meio das pessoas, dos néons e das montras. Aqui e ali parou a olhar uma montra antecipando as compras que faria para levar à sua mulher.
À entrada do The Mira estavam carrinhas de televisão e lá dentro um rebuliço de repórteres. Aparentemente Edward Snowden tinha dado a sua entrevista ao Guardian neste charmoso hotel havia dias. Na recepção, a fazer o check in, estava Anna. Trocaram um olhar quase sorridente, praticamente um cumprimento. Hugo ficou no 492. Mais tarde, quando se encontraram no restaurante do hotel, foi como se se conhecessem.
Hugo estava sozinho à mesa quando Anna entrou, também sozinha. Com um sorriso levantou-se e, com um aceno tímido, convidou-a a juntar-se a ele para jantar. Estava a ser um dia de primeiras vezes.
Anna era advogada como Hugo. Vivia em Londres, trabalhava numa multinacional e viajava sem parar. Era uma nova nómada, como Hugo, uma profissional qualificadíssima que conhecia hotéis e salas de reunião em todo o mundo. Pediram uma garrafa de merlot e falaram. Hugo falou-lhe de Lisboa, que Anna não conhecia, e ela falou-lhe de Londres. Contaram histórias de reuniões e de clientes e falaram de Snowden e de segredos. Era o tema do dia. Muita da vida dos dois era passada online, ao telefone, a trocar e-mails e em video-conferências. A ideia de que as suas vidas eram escutadas não lhes era estranha. Era até natural que assim fosse, concluíram. Afinal a tecnologia permitia e quando assim é aproveita-se. É a lógica da guerra, do negócio, da espécie. Quando acabaram de jantar, bem dispostos, concordaram em dar uma passeio por Nathan Road. Viram montras, compararam gostos e deram-se a conhecer um pouco mais e sorriram. Sorriram um para o outro como se estivessem os dois de férias. Depois voltaram ao hotel, subiram ao 492, beijaram-se e despiram-se.

Imagine-se um sujeito fechado numa sala toda branca. Um cubo branco sem porta nem janelas nem saída. O sujeito, ali fechado, não sabe nem se lembra como lá foi parar. Nem porque está ali. É alimentado mas não tem noção do tempo, da noite ou do dia. Não sabe se é prisioneiro, se foi raptado, se é vítima de um reality show ou de uma qualquer experiência científica levada a cabo por um louco. Se calhar extra-terrestres. Tudo hipóteses que o sujeito se põe e que provavelmente viu em filmes ou na televisão.
Na sala toda branca, sem marcas nem relevos, não há nada a não ser um pequeno botão. Mesmo no meio da sala, no chão. O pequeno botão é preto. O pequeno botão pode carregar-se mas não se sabe o que acontecerá nem para que serve, como bem lembra o aviso que lhe está adjunto e onde se lê-se, preto no branco: “CARREGAR NESTE BOTÃO TEM CONSEQUÊNCIAS”.
Se tocar no botão aparecerá alguém? Revelar-se-á uma porta que se desembutirá da parede? Ouvir-se-á uma voz a explicar o porquê de estar numa sala toda branca? Abrir-se-á o tecto e as paredes de onde emanará gás sarin que terminará a sua vida? Abri-se-á um alçapão? Entrará alguém para lhe fazer companhia? Ou um cão raivoso? Ganhará a liberdade? Ou acordará de um sonho se tocar no botão?
Quanto demorará até que o sujeito carregue no botão? É uma questão de tempo. É fácil de imaginar que qualquer um, mais cedo ou mais tarde, tocará no botão mesmo que um botão, uma vez tocado, não possa ser destocado.

Hugo nunca tinha visto nem tocado em nada assim. Daí o enorme tesão.
As pernas começavam elegantes, em finos tornozelos, e mantinham-se finas e bem desenhadas até ao joelho. O joelho também era bonito e elegante. Bem diferente do joelho que conhecia, aquele típico joelho português evoluído ao longo de anos e anos de pobreza, a esfregar, de cócoras, soalhos encardidos. As pernas macias e brancas de Anna só começavam a alargar na coxa. Mas não imediata ou abruptamente. O volume das coxas ia ficando maior, mais carnudo, delicadamente mais carnudo até formar umas coxas grandes, robustas que desaguavam num mundo grande, redondo e macio que era o rabo. Depois uma cintura muito fina concluía-o. Nunca Hugo tinha visto um rabo assim, virado para si, a pedir para ser entrado.
— Posso? — perguntou.
— Claro — foi-lhe murmurado no escuro. E Hugo entrou.
O mundo mudou.

Sobre Pedro Bidarra

As pessoas vêm sempre de algum sítio. Eu vim dos Olivais-Sul, uma experiência arquitecto-sociológica que visava misturar todas as classes sociais para a elevação das mais baixas e que acabou por nos nivelar a todos pelo mais divertido. Venho também da Faculdade de Psicologia da clássica, Universidade Clássica de Lisboa onde li e estudei Psicologia Social e todas as suas mui práticas teorias. Venho do Instituto Gregoriano de Lisboa onde estudei os segredos da mais matemática, e por isso a mais emocional e intangível de todas as artes, a música. E venho sobretudo de casa: de casa das duas pessoas mais decentes que até hoje encontrei; e de casa dos amigos que me ajudaram a ser quem sou. Estes foram os sítios de onde parti. Como diz o poeta (eu):
“Para onde vou não sei/ Mas vim aqui parar/ A este triste lugar.”

Esta entrada foi publicada em Ficção. ligação permanente.

8 respostas a O botão

  1. Afrodite diz:

    Esta história é um belo cu

  2. Todo o botão é um olho do mundo.

    • Pedro Bidarra diz:

      Da mesma maneira que não se pode destocar um botão ou uma campainha, também não se consegue desver. Fazer undo é um poder que existe só do mundo virtual. No outro não dá.

  3. Mário diz:

    Isto não é um episódio de Lost? E a nudez introduzida é artística, claro. 🙂

    • Pedro Bidarra diz:

      Talvez. Hong Kong, segredos, espionagem, hoteis, experiências, mundos virtuais, nómadas, sodomização romântica; fez-me sentido tudo junto.

  4. nanovp diz:

    E se o Botão fosse falso achas que o rabo seria outro? Hei-de perguntar ao Hugo…

Os comentários estão fechados.