O dia em que matei o Pai Natal

 

Sem título. Pedro Norton, 2013.

Sem título. Pedro Norton, 2013.

Não me lembro do dia em que morreu o Pai Natal. Mas lembro-me muito bem do dia em que matei o Pai Natal.

Acho que chovia, era Dezembro (pois claro) e o Tomás tinha cinco anos. Estávamos os dois em casa. Sós. Um jantar «à homem». Lá para as minhas bandas é o que chamamos às salsichas com salsichas acompanhadas de Coca-Cola que eu cozinho como ninguém. Eu não sei fazer melhor e ele, que é generoso como poucos, faz por convencer-se que os homens, quando se juntam, jantam assim. Só para não me deixar ficar mal.

Como sempre acontece entre nós, conversávamos a bom conversar num silêncio muito nosso. Do meu trabalho, da escola dele e das coisas verdadeiramente importantes da vida. TipoRatatouille e Lightning McQueen. Não quero jurar mas acho que ainda não falávamos de miúdas (naquela época, e com raríssimas excepções que não vou aqui nomear, ele ainda as achava a coisa mais repugnante e nojenta que Deus tinha trazido à terra). Em compensação tenho a certeza de que falámos do Benfica. E do Tio Tiago, claro. Porque a morte, a morte bem vivida do Tio Tiago, sempre fez parte das nossas conversas e das nossas refeições. Para alegrar umas e para apimentar as outras. Em todas as famílias, é essa, afinal de contas, a função das mortes felizes. Mas desconverso.

Ia assim a noite, dizia eu. Uma noite fria e imóvel, feita de salsichas, de perguntas, de silêncios (de muitos silêncios) e dos olhares abraçados que só um pai e um filho sabem olhar. Uma noite, inocente, «à homem». Daquelas que fazem dos homens mais rapazes e dos rapazes mais homens. E foi então que o Tomás pousou o garfo, franziu a testa e fez a sua cara das perguntas difíceis. «Hoje, na escola, um amigo disse-me que o Pai Natal não existia».

O tempo, que já ia preguiçoso, parou uns instantes. Se eu tivesse relógio e se o relógio tivesse cuco, o passaroco teria fugido dali para fora. Que se faz tarde e o ar fez-se denso. A salsicha não ia para baixo. Tosse. Mais Coca-Cola. Mais silêncio. E o disparate mais disparatado que me lembro de ter feito em todos os dias da minha vida. «O seu amigo, Tomás, tem razão». Mais Coca-Cola ainda. «O Pai Natal não existe». E mais uma porção de asneiras gaguejadas, assim, de jorro. Sobre o significado do Natal, a importância de dar presentes aos amigos e o privilégio que é poder recebê-los.

O Tomás, que nestas coisas aprendeu tudo o que havia a aprender com o Tio Tiago, fez-se forte. Ao silêncio que se seguiu, respondeu com um silêncio quase ensurdecedor de tão digno. Como se eu, insensível cretino, não tivesse acabado de matar ali, a sangue frio, à frente dele, todos os Natais da sua vida. E não fosse aquela lágrima muito, muito grossa, que só por manifesta impossibilidade física não conseguiu pôr a correr para dentro, nada teria traído a sua infinita tristeza. Silêncio, só silêncio. E eu, nunca mais consegui perdoar-me.

 

 

Sobre Pedro Norton

Já vos confessei em tempos que tive a mais feliz de todas as infâncias. E se me disserem que isso não tem nada a ver com tristeza eu digo-vos que estão muito, mas muito, enganados. Sou forrado a nostalgia. Com umas camadas de mau feitio e uma queda para a neurose, concedo. Gosto de mortos, de saudades, de músicas que nunca foram gravadas, de livros desaparecidos e de filmes que poderiam ter sido. E de um bom silêncio de pai para filho. Não me chamem é simpático. Afino.
Esta entrada foi publicada em Trasladações e Outras Ossadas. ligação permanente.

7 respostas a O dia em que matei o Pai Natal

  1. Gostava que um dia filmassem isto. Que a cena aparecesse, tão bem filmada, como aqui, de tão sentida está bem escrita.

  2. Carla L. diz:

    Coloca sentida nisso, Manuel…
    Suas palavras, PN, perfeitamente carregadas de todo sentimento, me atravessaram o peito como flechas e ao final da última deu-me um nó na garganta, daqueles que leva tempo para desatar.
    E o filme, Manuel, passou-me bem aqui na frente.

  3. Para fugir ao embaraço que sentiste, vou dar o texto a ler ao meu filho (é bom habituá-lo desde cedo a literatura da mais fina cepa) quando ele tiver idade para saber o que faz o Pai Natal. E depois culpo-te a ti.

  4. nanovp diz:

    Cruel a afirmação, simples e bela a escrita!

  5. Paula Santos diz:

    Que pedaço de vida tão cheio de silêncios tão bem conversados…

    Deixe-me abraçá-lo Pedro que conseguiu pôr-me a correr uma lágrima para dentro.

    Manuel Fonseca, quem traz a câmara? 😉

  6. Mário diz:

    Pois é, há alturas em que os miúdos nos entalam. Quando há a mãe por perto é possível uma saída rápida: “pergunta à tua mãe”. Os meus tiveram um período de transição; começaram a perceber que o Pai Natal ia deixando os presentes pelas diversas casas. Depois perceberam que o Pai Natal só trazia um presente, era impossível trazer todos os presentes de todas as crianças do mundo, e os restantes eram comprados pelos pais. Até ao dia de hoje em que se limitam a assinalar os presentes naqueles catálogos do continente, isto quando não pedem presentes caríssimos e viagens mais ou menos exóticas. Mas felizmente que a coisa foi sendo resolvida entre os colegas e os irmãos, com o Pai Natal, com a fadinha do dente – que me fazia sair à noite ao centro comercial mais próximo e comprar qualquer coisa, não apenas para o que não tinha o dente mas para os outros também, para não ficarem tristes. Fadinha generosa. 🙂

  7. Belíssimo texto.Eu lembro-me bem do dia em que me mataram o “meu “pai natal, foi no Alentejo, no carro, a caminho de Montemor o Novo e foi uma tia minha de quem muito gosto. Lembro-me de ter ficado muito triste mas não me lembro de quantos anos tinha. Quanto ao meu pequeno, tem 6 anos e ainda acredita. Quando era mais novo veio com a história de ele não existir mas dei-lhe a volta. 🙂 Vai dizendo que o Pai Natal faz as compras no Toys R Us e outras, mas este ano a magia cresceu mais um bocado. Lembrou-se de deixar cenouras para as renas e bolachinhas para o pai Natal ao pé da lareira. Lá as tirei e pus no lixo depois de ele dormir, claro. De manhã escuto um grito de alegria incontrolável: mãe, eles já vieram e comeram tudo! Desci e estava eufórico. Valeu este momento de pura inocência mais do que tudo.

Os comentários estão fechados.