O que é um round-robin?

 

00/00/1954. Film "River of no return" by Otto Preminger

Nestas filmagens uma rapariga não se diverte grande coisa.

É o meu anti-herói favorito. Ia apresentá-lo e ele interrompe-me: “A minha biografia? Para quê? Basta ir às esquadras de Los Angeles. Está lá tudo.” E, no entanto, apesar do abundante cadastro policial, Robert Mitchum é um rio tranquilo.

Nasceu cansado. Macho e cansado. O segredo das suas personagens é serem homens robustos, sólidos como armários, mas cansados de esconder as coisas que nem palavras lentas, nem gestos quase imperceptíveis, conseguem dizer. Mitchum, por exemplo, escondia uma ferocíssima gentileza. Cantava e compunha. Escrevia poemas e prosa.

De “Out of the Past” a “Angel Face”, a emoção de Mitchum é uma emoção ferida. Se lhe dissessem que tinha um olhar inexpressivo, ainda se diminuiria mais: “Consigo ter três expressões, olho para a esquerda, olho para a direita e olho a direito.

Tinha sentido de humor, quero dizer, o corpo de Robert Mitchum tinha sentido de humor. O físico dele não tem nada de cómico, como o corpo bailarino de Chaplin ou o corpo acolagénico e desdobrável de Jerry Lewis. Tem o humor subtil de um actor que, quando era miúdo, queria ser invisível. “A beleza deste gajo – disse Lee Marvin – Parece tão quieto. Mexe-se. E a verdade é que não se está a mexer.

Farewell, My Lovely

Mexe-se. E a verdade é que não se está a mexer.

A preguiçosa calma dele era inspiradora. Em “Farewell My Movely”, Mitchum engata uma incendiária Charlotte Rampling: – “Para minha casa?”, pergunta  ele. – “Para quê? Tens tudo o que é preciso contigo”, jura ela. E tinha. Um metro e oitenta de falsa timidez, cabelos escuros e olhos azuis. Não ia ter com as mulheres porque as mulheres vinham ter com ele, mas gozou um casamento de 57 anos com a namorada de juventude.

Marilyn deu-se bem com Mitchum no “River of No Return”. Provocou-o: “Nestas filmagens uma rapariga não se diverte grande coisa.” O duplo de Mitchum lançou-lhe logo o anzol: “Ah, sim? Que tal um round-robin?” Sabia lá bem Marilyn o que era um round-robin. O duplo de Mitchum explicou-se em francês: um ménage a trois, mas em duetos. Ela e ele, ela e Mitchum. “Oooohh, era coisa para me matar”, riu-se ela. “Ninguém morreu disso”, arriscou ele. Premonitória, ela não desarmou: “Aposto que sim. Só que nas notícias, depois, dizem que a rapariga morreu de causas naturais.”

E Mitchum calado. Como calado ficou, nos ensaios, ao ouvir a professora de dicção de Marilyn pedir-lhe que desse ênfase a cada frase. Preminger, o realizador, estava siderado com a violência dos movimentos da boca dela. Era impossível filmá-la. Bem pedia que ela relaxasse e nada. Quando foram filmar, Mitchum deu uma palmada amorosa no inenarrável rabo de Marilyn: “Agora acaba com o disparate e fala como um simples ser humano.” E ela, como se a língua do Espírito Santo lhe caísse em cima, começou a falar normalmente. O anti-herói favorito, digo eu, é aquele a quem invejamos a mão.

Publicado no Expresso , no último sábado de 2013

Sobre Manuel S. Fonseca

O meu maior medo é que a morte seja tudo às escuras sem se poder ler. Pouco interessa deixar de ser humano, desde que não deixe de ser leitor. Ler é do mais feliz que tenho. Até porque escrever é triste.

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10 respostas a O que é um round-robin?

  1. Pedro Bidarra diz:

    Que dois. O Mitchum era dos meus modelos “growing up”. Hoje é um dos meus modelos “growing old”. Uma das coisas que tenho saudades no cinema é de ver homens. Graças a Deus que nunca deixámos de ver mulheres, mas personagens Homem (note-se o H) parece que deixou de haver. Ou são jovens que parecem não amadurecer nunca, ou não querer envelhecer nunca, ou são já velhos. E depois são sempre muito politicamente correctos e sensiveis. E correm, fazem jogging. Alguma vez se b
    viu num filme o Mitchum ou o Lee Marvin ou o John Wayne a correr ou no ginásio?.

  2. É incrível como a Humanidade permitiu que se perdesse a obra do rabo de Marilyn, (e e todas as outras, as a matter of fact), ao menos mandavam-na para o Piero Manzoni enlatar.

  3. Mário diz:

    Se era uma espécie de time-sharing da Marilyn tadinho do Mitchum, desta vez tinha que dar corda aos sapatos 🙂

    • Manuel S. Fonseca diz:

      Mário, o nosso Mitchum, pela Marilyn, teria a delicadeza de se descalçar. 🙂

  4. Um homem faz muita falta. Um homem, não um duplo.

    • Manuel S. Fonseca diz:

      Fazem falta, a este mundo de cristo, homens cansados. Não acho bem um mundo de homens sem sono.

  5. riVta diz:

    my God…ele é gigante. Or is she so small?

  6. nanovp diz:

    E aquela voz? Parecem verdadeiros os comentários sobre a Marilyn e de alguém que a conheceu verdadeiramente….

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