Porque sim

 

"Attente de l' Impossible", Magritte

“Attente de l’ Impossible”, Magritte

 

— Pai, este quadro é estranho.
— Porquê?
— Porque é impossível.
— O que é que queres dizer com “é impossível”? Se fosse impossível não estava aqui.
— Não é isso que quero dizer.
— Então, filha?
— O que quero dizer é que é impossível. Aquilo não pode acontecer.
— Aquilo o quê?
— Aquela mulher ser ao mesmo tempo uma mulher e uma pintura. Devia ser uma coisa ou outra.
— Porquê?
— Porque é impossível.
— Porque é que é impossível se está a acontecer aqui à frente, mesmo diante dos nossos olhos?
— Ó pai pareces uma criança. Porque é que não és como os outros pais e respondes às coisas em vez de fazeres perguntas?
— Não sei. Porque é que achas que sou assim?
— Lá estás tu. Deve ser vingança.
— Vingança porquê?
— Dos meus porquês, quando era nova.
— Mas tua ainda és nova.
— Mas já não sou tão nova que tenha tantos porquês.
— Mas todas as tuas observações são porquês. Quando dizes que “aquilo não pode acontecer” estás a perguntar-te porque é que aquilo está a acontecer.
— O que eu estava a dizer é que aquela mulher devia ser uma coisa ou outra. Ou uma mulher ou uma pintura. As duas é impossível.
— Porquê?
— Porque está errado.
— Ah, está errado. E está errado porquê?
— (Suspiro) Porque ela ou era uma mulher ou uma pintura. Não podia ser as duas coisas ao mesmo tempo. Assim o pintor errou.
— Qual pintor? O que está na pintura ou o que pintou?
— Esse é o mesmo não é? O pintor pintou-se a ele como deve ser mas não a pintou a ela.
— Então entre o pintor pintado e o pintor que pintou não há diferença?
— Claro que há diferença mas ele está certo. Ela está errada.
— Ou seja a mulher pintada está errada porque o pintor que pintou, que não o pintor pintado, está errado?
— Porque é que tu não és mais como os outros pais?
— Querias que fosse?
— Não.
— Mas querias que este pintor fosse mais como os outros, não querias?
— Queria que a mulher fosse uma mulher perfeita e não inacabada.
— Porquê?
— Porque me faz confusão. Acho que o pintor foi mau.
— Mau pintor?
— Não, má pessoa. Foi cruel com ela.
— Com ela quem? Com o modelo ou a mulher pintada? Achas que esta figura, com o braço inacabado, está a sofrer com a maldade do pintor.
— Não porque é só uma pintura, uma figura. Mas a mulher que pousou para ele se calhar ficou magoada.
— Por não ter braço?
— Por ter ficado incompleta.
— Achas então que o pintor e o modelo estavam zangados e ele vingou-se não lhe fazendo o braço até ao fim?
— Não é bem isso. Se fosse assim, fazia uma mulher sem braço e não se pintava a ele a pintar a mulher. É como se ele dissesse que tu só és bonita por causa de mim. Sou eu que te faço bonita.
— Uau. Isso era cruel. Achas que era isso que ele queria dizer quando pintou este quadro?
— Não sei. Diz-me tu.
— Se ela tivesse o braço completo achas que estava certo? Ela deixava de ser uma pintura e o pintor deixava de ser mau?
— Talvez.
— E o pintor que está na pintura? Se ela estivesse completa o significado não era o mesmo, pois não? Era um pintor que se preparava para fazer da sua mulher uma tela. Não era?
— Isso ainda era mais cruel.
— Mais cruel do que a figura estar inacabada?
— Não sei. Se calhar o pintor estava chateado com a mulher. Esta é a mulher do pintor, não é?
— É um retrato do pintor e da mulher – chamavam-se Magritte e Georgette.
— Ela deve ter ficado chateada.
— Porquê?
— Eu ficava se tu me pintasses assim.
— E se em vez do braço te pintasse sem uma perna?
— Agora estás a desconversar.
— E não achas que o pintor também podia estar  a desconversar?
— Com quem?
— Connosco, com os seus colegas artistas, com os colecionadores, com os críticos, com a própria pintura.
— Para quê, para os chatear?
— Provavelmente.
— Então tenho razão.
— Acerca do quê?
— Ele era mau.
— Mau pintor?
— Não. Pintor até era bom. Só um bom pintor é que faz uma coisa tão bem feita.
— Então afinal o pintor não errou.
— O quê?
— Tu tinhas dito que o pintor tinha errado.
— Eu disse que o quadro estava errado. Não é a mesma coisa.
— Tens razão. Então o pintor está certo mas o quadro errado.
— Sim. Mas o pintor também está errado estando certo como pintor.
— Agora perdi-me.
— Se queria chatear os outros estava errado. Chatear os outros é mau, não é? Ou estou errada?
— Achas que estás errada?
— Não sei. Estou baralhada.
— Como o quadro.
— Sim. Ali está tudo baralhado: o pintor a pintura e o pintado.
— Que bela rima, filha.
— Obrigada pai.
— Estes meus porquês chateiam-te, não chateiam?
— Chateiam-me.
— Então eu sou mau.
— Não, pai, és bom. E os teus porquês também.
— E os do Magritte?
— Se calhar também são bons. Pelo menos são diferentes.
— E diferente é bom?
— Não sei se é bom ou mau, mas diferente, pelo menos, não é chato.
— Mesmo quando chateia?
— Sim.
— Porquê, filha?
— Porque sim.

Sobre Pedro Bidarra

As pessoas vêm sempre de algum sítio. Eu vim dos Olivais-Sul, uma experiência arquitecto-sociológica que visava misturar todas as classes sociais para a elevação das mais baixas e que acabou por nos nivelar a todos pelo mais divertido. Venho também da Faculdade de Psicologia da clássica, Universidade Clássica de Lisboa onde li e estudei Psicologia Social e todas as suas mui práticas teorias. Venho do Instituto Gregoriano de Lisboa onde estudei os segredos da mais matemática, e por isso a mais emocional e intangível de todas as artes, a música. E venho sobretudo de casa: de casa das duas pessoas mais decentes que até hoje encontrei; e de casa dos amigos que me ajudaram a ser quem sou. Estes foram os sítios de onde parti. Como diz o poeta (eu):
“Para onde vou não sei/ Mas vim aqui parar/ A este triste lugar.”

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16 respostas a Porque sim

  1. Pedro Norton diz:

    Nunca tinha posto a hipótese de a Vénus de Milo estar errada. Falta de imaginação minha, já se vê…

  2. A minha avó sempre teve um sentido de humor… enfim, usava-o quando não usava a pedagogia directa desse porque sim – porque eu mandei. Quando era pequenina roía as unhas. Um dia estava a ver um livro de bonecada dessa, não sabia ler, e quando passou a Vénus de Milo disse-me ela:
    – Mal empregada miúda, era tão gira, até lhe fizeram uma estátua, que pena roer as unhas.
    Até hoje.

    • Pedro Bidarra diz:

      Grande avó. Gosto muito de conversas com crianças. E gosto que me expliquem as coisas como se fosse uma. Adoro aquela frase do advogado (Denzel Whashigton) no Philadelphia para os reus – Explica-me lá como seu eu tivesse seis anos.

  3. Manuel S. Fonseca diz:

    Magritte havia de gostar que uma catraia dissesse que era impossível este quadro acontecer.

  4. Mario diz:

    De facto este dialogo nao e possivel na medida em que o pai, como todos os pais, a segunda questao responde: pergunta a tua mae – e a conversa ficava por ai…

    • Pedro Bidarra diz:

      Pai divorciado a levar a filha ao museu no fim-de-semana que lhe calha de quinze em quinze dias.

      • Mario diz:

        Outro cenario improvavel Pedro, ter a filha de 15 em 15 dias e leva-la ao museu? e quel tal leva- la ao Rock in Rio? 🙂

        • filha diz:

          Eu (filha) ia com o meu pai aos museus e adorava. Aos concertos levava os amigos.

          • Pedro Bidarra diz:

            O pai é um intelectual. Um professor ou um escritor. Gosta de museus. Não faz muito dinheiro porque passa muito tempo a ler e a escrever. A mulher, advogada em escritório grande, fartou-se faz tempo. Enrolou-se com um colega e lá foram viver juntos com os dele e os dela. Como diz a filha, aqui em cima, é com as amigas e meios irmãos e vai ao rock n rio. É o padrasto que paga.
            O pobre pai, ainda assim sente-se culpado e falhado. levou um par de cornos mas pensa que a culpa é sua, que não fez tudo o que devia. O que lhe resta é que a filha seja mais que uma coquette mimada com dinheiro que jorra a rodos lá em casa. Roupa, férias, gadgets e distrações não lhe faltam. O pai faz o seu papel: ver museus e falar. É um belo pai, embora teso

  5. Grande diálogo, Pedro. E toda a gente sabe que não é pêra doce fazê-los assim bem feitos.

  6. nanovp diz:

    E porquê? Porque é que é fácil com as filhas imaginarias….?(just kidding!)

  7. Mário diz:

    Pedro, esse pai está pronto para breaking bad 🙂

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