Só tenho mais uma hora de vida

Life: Fabulous Ride

Life: Fabulous Ride

Manuel Fonseca,

já sabe que sou bem mandada. Se vou morrer dentro de uma hora, de perfeita saúde, pensei que sim, uma vez, foi só uma, o que fiz decerto seria o que voltaria a fazer.

Mas caso não, caso estivesse livre do susto, preferia gastar essa longa hora devagarinho.

10 minutos de luto e de blues por tudo o que não fui, por ter ficado aquém, pelo que não fui, não fiz, não tive, não soube. Talvez os fechasse assim, mais gospel, para poder perdoar e amar tudo isso que desconsegui, para aceitar o sabor mais complexo e solitário do fracasso. Não é fácil amar o que tem o pesado julgamento de não ser amável.

10 segundos sem qualquer acompanhamento  para gritar ao Amor: és um estúpido, nem depois de morta te perdoarei a mariquice não teres aparecido para vivermos o que poderíamos ter vivido. Why didn´t you Fly me to the moon com o Frank Sinatra? Ainda bem que vou morrer, só assim livro-me de ti de uma vez por todas. Odeio-te e espero que a glaciação te apanhe! E quando ele já não estivesse a ouvir, ouvia eu esta Cecília Meireles que há desgostos grandes demais até para a Mina, e negar a existência a The first time ever I saw your face do meu Cash é um deles.

Quarenta minutos para agradecer tudo o que a vida me deu – bem sei, seria como os agradecimentos nos Oscars, ficaria quase tudo por lembrar. Há uma alegria profana em Mozart e Bach como não há em lado algum e eu ia com ela. E dançar umazinha só da minha Janis Joplin. E uma bela colheia tardia, solar e doce na língua como uma tarde de praia ao calor de Julho, como o quente mais húmido que nem é blues nem country nem folk para dizer adeus à luz, e uma Avé Maria.

Então, já no escuro e de olhos fechados, faria a saudação do sol porque a fé é isto, meditando cada uma das posições, e sentar-me-ia o resto dos segundos que sobrassem toda no meu mantra em direcção às fundações do mundo.

É com a desaus­ti­nada ale­gria do Manuel Fonseca que pro­po­nho este desa­fio maca­bro aos Tris­tes deste blog. Num exer­cí­cio de “passa a outros dois e não aos mes­mos”, desafio os queridos Rita e Vasco a contarem-nos o que fariam na sua última hora de vida. Depois, antes de mor­re­rem, façam o favor de pas­sar a outros dois e não aos mesmos.

Sobre Eugénia de Vasconcellos

Escrever também é esta dor amantíssima: os lábios encostados à boca do silêncio, auscultando, e nada, esperando dele a luz que beije. É assim, pelas palavras se morre, pelas palavras se vive.

Esta entrada foi publicada em Post livre. ligação permanente.

11 respostas a Só tenho mais uma hora de vida

  1. Manuel S. Fonseca diz:

    Avé Eugénia, plena de graça. Eu adivinhava que depois do meu patético esforço, ia mesmo aparecer uma declaração sentida. Gostei muito, do seu filme e da banda sonora.

  2. Teresa Conceição diz:

    Amen, Eugénia, bendita sois vós e quem agradece somos nós.
    E que me sobrem muitas horas para as suas bandas sonoras tão viajantes.
    Que bom estar de volta e ter tanta escrita sua para me acrescentar o tempo.

  3. Luisa Mendes Gonçalves diz:

    Fico fascinada com o talento destes “Tristes”.

  4. ai se o Manel se lembra de nos desafiar para o depois. Já temos uma bela banda sonora.

  5. maria de jesus pires da rocha diz:

    desafie, desafie, desafie…para depois!

  6. nanovp diz:

    E sinto que se podia viver toda um vida por estes lados por si descritos Eugénia!

Os comentários estão fechados.