Talvez o cristianismo não seja uma religião de escravos

o Augusto Constantino

 Eu bem tento ler livros, dezenas de livros por mês. Mas cada vez estou mais confundido. Sem saber ler nem escrever, já me tinham soletrado o que Nietzsche dizia: que o cristianismo era uma religião de pobres e de escravos. Aprendi a ler, passam trinta, quarenta anos, e um historiador, Paul Veyne, num livro com o selo da Albin Michel, aponta o dedo acusador a Constantino. O livro chama-se “Quand notre monde est devenu chrétien” e, seja ou não seja esse o objectivo, desmente Nietzsche.

Paul Veyne diz que sim, que no começo, quando pouco mais seria do que um rumor, o cristianismo era uma religião sombria e de catacumbas, juntando essa escória a que séculos depois, de rijo punho erguido, se chamaria o sal da terra. Mas tudo teria ficado por aí se, entretanto, o cristianismo não se tivesse convertido no que ele chama “la question brûlante du siècle”, mais concretamente do século IV, depois da morte desse a que Vinicius e eu chamamos Nosso Senhor Jesus Cristo nascido para nos salvar.

Digamos que a sociedade romana olhava para o cristianismo como a universidade americana no lustro final do século XX olhava para o descontrucionismo de Derrida. O cristianismo seria, então, a linha de pensamento mais original, porventura mais impenetrável, de atractiva complexidade, paradoxal até pela fusão do símbolo crístico (um crucificado) com a iconoclasta mensagem que era amarem-se umas às outras as pessoas todas (e já todas serem pessoas era uma altíssima caldeirada).

Estão a ver quando em Nova Iorque desabrocha e num foda-se alastra uma tendência? Paul Veyne, nesse modo sereno com que os académicos delicadamente aviam aulas, diz, para o que a minha cabeça entende, que foi mais ou menos assim em Roma, numa vertigem chic a que patrício que fosse patrício, mãe de Imperador incluída, já não conseguia resistir.

É verdade que o Instituto Nacional de Estatística ainda não estava lá, mas calcula-se que, no máximo, apenas 10% dos súbditos do Imperador Constantino seriam cristãos. Nada o aconselhava, a não ser a irresistível atracção por Derrida e Lacan, perdão, por Jesus Cristo, se nos ativermos à bibliografia do tempo, a adoptar o cristianismo como religião, ainda por cima a título pessoal, desobrigando a populaça de qualquer culto, com excepção da proibição dos sacrifícios animais nos ritos imperiais. E basta este ponto para se afirmar que Constantino percebeu melhor Cristo do que toda a Ivy League Derrida.

Paul Veyne vai mais longe e, consciente embora da lenda da conversão do Augusto Constantino (os seus soldados, inscreveram uma cruz nos escudos e ganharam uma batalha às portas de Roma), aproxima essa escolha imperial da nova religião, de um capricho semelhante a um desses caprichos com que Andy Warhol punha bambas as pernas de Manhattan.

Sem esse gesto caprichoso, sugere o professor Veyne, o cristianismo não teria tido o futuro que teve. Pequena seita minoritária, professada por um bando inexpressivo de tipos perseguidos e martirizados, o cristianismo estava condenado. Constantino, sem nenhuma necessidade política ou social, por capricho, mas com a desmedida e exacta sinceridade que dava encanto aos caprichos de Andy Warhol, de Lou Reed ou de Nico, mudou o rumo do mundo. Foi uma “élection personelle” com a qual Constantino procurava um “rapport permanent, passionné, mutuel et intime” com esse novo, ferido e fresco deus. Uma “élection personelle” que conquistou uma já seduzida elite: tinham agora uma religião de amor, capaz de conferir uma significação eterna à efémera existência humana. Uma elite fez das palavras e da mensagem de um judeu a religião de estado de um império. Já levam mais de 15 séculos de fama. E olha Nietzsche, embrulha!

fN

Sobre Manuel S. Fonseca

O meu maior medo é que a morte seja tudo às escuras sem se poder ler. Pouco interessa deixar de ser humano, desde que não deixe de ser leitor. Ler é do mais feliz que tenho. Até porque escrever é triste.

Esta entrada foi publicada em Post livre. ligação permanente.

13 respostas a Talvez o cristianismo não seja uma religião de escravos

  1. Henrique Monteiro diz:

    Ó padre Manuel, quanta erudição. Se tivesse dito que a conversão das cruzes nos escudos do Imperador se deu na batalha da ponte Milvia e que o velho Constantino, cuja fama vem de longe se converteu ao cristianismo, sim, mas a uma heresia da ortodoxia romana – o Arianismo, do Bispo Ário, mais chique ainda – merecia um 20! Assim leva 19,5. Até porque o Arianismo foi o cristianismo aqui dos nossos visigodos. Só os Suevos lá de xima, do Minho e das minhas berças foram semper fidelis ao báculo de Pedro.

  2. Ó padre Henrique, seu malvado, então e a sua heresiazinha ariana? No outro dia, no seu post A porta abre-se? quando escreveu sobre a incerteza ontológica de Deus? Isso não é coisa do tio Clairvaux…

    • Ó irmã Eugénia, não me diga que está a defender este jesuíta do dominicano Henrique… Por este andar ainda abrimos um mosteiro.

      • Non, non, pas de mosteiros que já gastei o hermetismo e a peripatetice toda Convento de Cristo acima Regaleira abaixo até saber os degraus de cor e sonhar com a Tabula Smaragdina.

        Tenho uma terrível vocação heresiarca, vá lá que Deus me deu a ficção e já extinguiu as fogueiras. Não se esqueça, de pequena queria ser escritora, freira e bailarina.

    • Henrique Monteiro diz:

      A minha heresia é uma heresia e é com essa heresia que não combato heresias. Sou um herege de trazer por casa, um tipo sem a visão de Loyola, sem a loucura de Assis, sem os estudos de Aquino, sem os pecados de Agostinho, sem a prédica de Guzmán. O melhor em mim é a arte de Sales, que inventou a comunicação à distância…

  3. Pedro Bidarra diz:

    Os meus amigos, sim, são Ivy League. O que uma pessoa aprende por aqui…

  4. nanovp diz:

    E eu sinto-me com a cultura do escravo…

Os comentários estão fechados.