Um lugar na terra, outro no céu

 

soigne ta droite

A dançar com a mais inefável das mulheres

Paleio com que, há vinte e tal anos, me defendi de ter gostado, e ainda hoje gostar, do Soigne ta Droite, de Jean-Luc Godard

Soigne ta droite pode reconciliar com Godard aquele razoável número de cépti­cos que, por obra e graça dos humores mercuriais com que respondem aos seus filmes, o fazem ciclicamente transitar do estatuto de objecto da moda para o de ci­neasta maldito.

O facto de o filme ter apenas um esboço de trama ficcional em que o cinema é o tema (a história da encomenda dum fil­me), bem como a aparição do próprio Go­dard como actor (de resto com um ines­quecível desempenho cómico logo nos primeiros planos), pode criar a ilusão de que Soigne ta droite se limitaria a prosse­guir os seus filmes anteriores. Há, todavia, uma mudança substancial de tom e estra­tégia: a vida e o mundo são objecto de um olhar, e de um riso, que nos convidam a pensar em Jacques Tati ou em Jerry Lewis – ou numa simbiose dos dois.

Godard faz, de­pois, passar por esse olhar e por esse riso uma poesia que perdeu o carácter proféti­co de Pierrot le fou e se encheu de pressá­gios sombrios e dolorosos. Cito apenas uma sequência, a do estádio de Heysel, com o gordo e pungente Jacques Villeret, sentado sobre uma pilha de mortos e feri­dos, a gritar por Platini. A cena é irrisória e é talvez esse irrisório que nos faz sentir tão vulneráveis como quando, nos grandes clássicos, se tiravam efeitos de nobres ideias ou de profundos sentimentos.

Dividido em dois andamentos, a que o autor chamou “une place sur Ia terre“, e “une place comme au ciel“, Soigne ta droite evolui, de facto, da terra para o céu, da imobilidade para o movimento, com a mesma ordem (ou com o mesmo caos) que comanda o bater do vento nos ramos das árvores. Não é um filme sobre o sexo, ou sobre o amor, nem sobre a violência, ou sobre a liberdade. Nem sequer sobre o desporto. E um filme nascido da vida. Com enquadramentos estarrecedores e a mais bela homenagem simultânea que o cinema alguma vez dedicou a Méliès e a Jean Vigo, na sequência das portas, em que Villeret (prodigioso) dança com a mais inefável das mulheres.

Sobre Manuel S. Fonseca

O meu maior medo é que a morte seja tudo às escuras sem se poder ler. Pouco interessa deixar de ser humano, desde que não deixe de ser leitor. Ler é do mais feliz que tenho. Até porque escrever é triste.

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2 respostas a Um lugar na terra, outro no céu

  1. Lugar nenhum de partida ou chegada. Estamos em trânsito, é o único lugar. Gosto muito de Godard, mas isso já toda a gente sabe.

  2. nanovp diz:

    Pois não vi Manuel (sacrilégio!), mas tenho aprendido a reapreciar o Mestre e estes teus textos vão ajudando, fazendo a merecida homenagem …

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