Um rugido de fim de império

Esta é a versão original da habitual crónica do “Expresso” que, na edição impressa, reduzi
para a adequar ao novo formato do “Atual” .

cagney bogart

O rugido de Cagney e Bogart

Há um filme sobre o rugido dos anos 20. James Cagney e Humphrey Bogart vivem-no no “Roaring Twenties”, de Raoul Walsh. O rugido, primeiro rugido imperial da América, que acabara de ganhar essa Grande Guerra que agora faz cem anos, traz a Lei Seca e contrabando, jazz, coristas e avidez, a proliferação do automóvel e da urbana morte a tiro.

Pequeno como Cagney, mais sorridente do que Bogart, eu vivi o rugido de fim de império dos anos 70. Cagney e Bogart batem-se, na Europa, nas lamacentas trincheiras. Após a vitória, Cagney fica a remendar a França e quando volta à América, dois anos depois, já toda a gente se esqueceu da guerra e não tem ninguém à espera. Também eu.

Em 1975, fui para Grenoble. Dois amigos angolanos armaram um esquema para que, clandestino, tivesse cama e comida na residência universitária africana. Não era fácil, a minha brancura era um farol no meio de malianos, senegaleses e marfineses. E havia mais frio e neve naqueles Alpes do que na escadaria em que Cagney tomba morto, no fim de “Roaring Twenties”. Veio outro angolano e aliciou-me a voltar, para ver a Independência, em vez de estar ali a remendar a França.

roaring twenties the end

Neve dos Alpes na América dos roaring twenties

Em Lisboa, teria para aí uns saudosos 20 escudos no bolso, pedi à Força Aérea boleia para Luanda. Assinei um papel como povoador e levaram-me à borla. Aquilo parecia o meu Air Force One: era a tripulação e a minha imprestável solidão. Saí do avião, nem alfândega, nem fronteira. Estava em Luanda, trapos e dois livros numa rançosa mochila da tropa, a minha pequenina Hermes Baby na mão.

Cagney, quando chega, volta ao mal-amanhado quarto onde vivia com o mais aéreo dos amigos, o angélico secundário Frank McHugh. Também tenho amigos assim. Bati e a porta abriu-se, uma aromática nuvem de diamba limpou-me o nariz, corriam baratas castanhas e dinâmicas pelas carpetes. Era bem-vindo, via-se.

Volta-se e não há nada para fazer. O mundo que Cagney conhecera mudara e a América não sabia o que fazer com ele, nem ele com a nova América. Luanda, a minha cidade, também não tinha nada para mim. Cagney mete-se a guiar um táxi e eu fui para o Lobito, donde o velho Éme já tinha corrido a Unita. Dera lá aulas, talvez houvesse aulas para dar.

Quando Cagney dá conta, tem o dedo agarrado ao gatilho de uma linda Tommy. A mim, o meu Raoul Walsh deu-me uma Vigneron. Se Cagney a tivesse conhecido, havia de a querer, fácil no tiro selectivo, leve e pronta para a guerrilha urbana.

Cagney tinha uma frota de táxis com que dominava o seu império. Nós tínhamos um barco oceanográfico para vigiar a costa e prevenir a invasão sul-africana. O meu filme, afinal, até podia ser o cómico “1941”, de Spielberg, não fora uma obstinada nuvem trágica estar sempre a desenhar-se na linha de horizonte. Um dia conto a obstinada nuvem e o resto.

Publicado no Expresso no primeiro sábado de 2014.

Sobre Manuel S. Fonseca

O meu maior medo é que a morte seja tudo às escuras sem se poder ler. Pouco interessa deixar de ser humano, desde que não deixe de ser leitor. Ler é do mais feliz que tenho. Até porque escrever é triste.
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4 respostas a Um rugido de fim de império

  1. Isto é bom de mais para ser cortado, os cortes faz quem edita, e um bom escritor tem de ser um bom editor de si mesmo. E o Manuel é.

    Não me responda com razoabilidades de gestão de espaço, comercial ou estética ou lá o que seja. A escrita é uma coisa, a gestão é outra. Um jornal é mais feliz quando sabe distinguir quem é para quê, e o que cada coisa é.

    Venha a obstinada nuvem em número justo de caracteres.

    • Escreve-se o que escrever se possa. Há quem, num aforismo, diga tudo o que há para dizer. Mas há coisas, ideias ou uma história que precisam das mais de mil páginas que Tolstoi também precisou. Pode viver-se, e a Eugénia sabe-o melhor do que eu, nesse mínimo, nesse máximo.
      Agradeço-lhe as bondades e prometo-lhe que, um dia, obstino-me!

  2. nanovp diz:

    Grande filme Manuel, trágico claro, como muitas das histórias à nossa volta…ou como a tua nuvem obstinada….

  3. António Barreto diz:

    Grandes façanhas Manuel…de fusca pronta?

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