A minha melhor hora

morphine+-+2010+-+Olivier+Dogot+-+8!285∞

(Continuação do macabro dominó proposto pela Eugénia de Vasconcellos onde os tristes do EÉT são peças que vão caindo duas a duas.)

Já escrevi sobre um homem que era visitado por uma premonição ruiva que lhe dizia que faltava um quarto para a morte – escrevi-o no “Almeida”, dedicado a um amigo que se tinha suicidado, e transladei-o para aqui faz tempo. Era um desafio maior por ser mais curto. Uma hora é outra coisa, sessenta minutos é mais assunto. Fiz a experiência e cronometrei um minuto de pensamento, e a quantidade de imagens e de fragmentos de assuntos que passaram pela cabeça foi enorme. Em apenas um minuto lembrei-me da minha mãe, do recente jantar com ela, lembrei-me de cenas do Guerra e Paz – estava a tocar uma valsa vianense na rádio e, talvez por isso, lembrei-me de princesas russas – pensei nas árvores que plantei em frente a casa, do mar que vi recentemente, de um texto que deixei incompleto e noutras coisas que não são para aqui chamadas; tudo num minuto. Imagine-se o tormento que seria sessenta minutos de pensamento sabendo que seriam os últimos. E com a morte ali sentada, à espera.
Não, a minha última hora não será dedicada a balanços e ruminâncias. Qualquer coisa terá de ser organizada para evitar estes tormentos.
Falava disto com a Catarina quando ela se lembrou de uma história da catequese:
“O que faria uma criança pequenina se um anjo lhe aparecesse e lhe dissesse que faltava uma hora para morrer? Ao contrário dos adultos ou dos seus irmãos mais velhos, que correriam à igreja a confessar os pecados, a criança continuaria a brincar.” Disse o catequista.
Eu acho que a minha última hora será mais por aqui.

Lembro-me de escrever um anúncio em que um homem era visitado pela Morte. Foi para a Lactogal, num concurso que obviamente perdi. O produto era um queijo gourmet. Descrevo: “Um homem sentado em sua casa a ler o jornal, é interrompido por um toc toc toc insistente. Alguém bate forte na madeira da porta da entrada. O homem levanta-se, abre a porta e lá está o cavaleiro sem cara, a Morte com a sua gadanha afiada. Sem nada dizer, e apontando apenas para o relógio que traz no pulso, a Morte diz ao homem que é chegada a hora. Sem imitir palavra, surpreso mas resignado, o homem convida a Morte a entrar. Já em de casa pede-lhe um minutinho, um último desejo. A morte condescende e senta-se no sofá à espera. O homem prepara então uma tábua de queijo gourmet, enche um copo de vinho e senta-se em frente à Morte a saborear cada naco de queijo. A Morte olha o relógio de pulso e espera impaciente enquanto o homem se deleita com o queijo. Finalmente chega o último naco. O homem come-o com prazer e cerimónia, levanta-se, dá uma última olhada à casa, pega nas chaves, para as largar logo de seguida – delas não precisará mais – e sai com a Morte, fechando a luz atrás de si. Aparece então uma legenda com a moral da história: “O que não se come cá, não se come lá”.”

Mas estou eu para aqui a contar histórias sem ir directo ao assunto. Até parece que estou a fugir com o rabo à seringa e afinal, assim que li o desafio – se soubesse que tinha mais uma hora de vida – decidi logo ali que a minha última hora seria a minha melhor hora.
Aconteceu que depois morreu o Philip Seymour Hoffman e eu vacilei. Como prezo o pensamento original, pareceu-me que estava a roubar-lhe a ideia. É verdade, foi em ópio que pensei quando foi lançado o desafio da hora da morte. Em ópio e morfina, que é a filha dilecta do ópio, o principal alcaloide da lachryma papaveris, a lágrima que cai quando se fere o bolbo ainda verde da papoila sonífera.
A minha última hora, tendo eu a sua premonição com antecedência suficiente – e ainda que não tenha, agora que a pensei tenho obrigação de deixar tudo preparado – será dedicada ao prazer supremo. Sairei deste mundo com o accumbens nucleus, o septum pellucidium, o hipotálamo e o cortex pré-frontal completamente acesos, rubros de prazer. Se me fizerem uma termografia cerebral, mesmo depois de morto, tudo estará colorido num monocromatismo que irá do vermelho alaranjado ao vermelho muito vermelho. Sairei deste mundo num êxtase de calor e prazer: um calor que começará pelas extremidades, que invadirá todo o corpo até ficar confortável, tão confortável como um deus no céu; sem dor, sem mágoa, sem males; arrepiado de prazer, fluindo num éter amigo de tudo e de todos, em paz com toda a vida e as suas coisas todas; indo, indo, indo.
Não precisarei de muito. Um frasco de morfina Merck, uma anestesista russa, para cuidar de me dar o máximo prazer sem náusea e sem OD antes da hora, e o álbum Electric Lady Land. Será a minha melhor hora.

P.S.: As próximas peças do dominó a cair, serão a Teresa e a Maria João.

Sobre Pedro Bidarra

As pessoas vêm sempre de algum sítio. Eu vim dos Olivais-Sul, uma experiência arquitecto-sociológica que visava misturar todas as classes sociais para a elevação das mais baixas e que acabou por nos nivelar a todos pelo mais divertido. Venho também da Faculdade de Psicologia da clássica, Universidade Clássica de Lisboa onde li e estudei Psicologia Social e todas as suas mui práticas teorias. Venho do Instituto Gregoriano de Lisboa onde estudei os segredos da mais matemática, e por isso a mais emocional e intangível de todas as artes, a música. E venho sobretudo de casa: de casa das duas pessoas mais decentes que até hoje encontrei; e de casa dos amigos que me ajudaram a ser quem sou. Estes foram os sítios de onde parti. Como diz o poeta (eu): “Para onde vou não sei/ Mas vim aqui parar/ A este triste lugar.”
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3 respostas a A minha melhor hora

  1. Tudo, afinal, Peter, por causa da anestesista russa… O Eletric Lady Land, em vinil, foi minha companhia entre bairro e musseque.

  2. nanovp diz:

    Uma saída em grande …

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