Black and Blue

Rolling_Stones_Black_And_BlueBlack and Blue podiam ser as cores dos dias que se vivem. Mas é também este álbum dos Rolling Stones, algo escondido entre outros mais conhecidos, final de um período e começo de outro, ao qual gosto sempre de voltar. Ele próprio exemplo de dias difíceis que passam, mas também de estações onde a luz se vislumbrava por entre as nuvens.

Em crise estavam os Stones na altura, depois de anos seguidos de exageros onde o sucesso trazia o desgaste físico e psicológico. E drogas, muitas drogas, e sexo, muito sexo. Desde as famosas gravações de “Exile on Main Street”, em 1972 , no verão passado na Villa Nelcotte  no sul de França, (fugindo às garras afiadas dos colectores de  impostos de “sua magestade”), que Keith Richards assumia sem rodeios a sua dependência na heroína. Mick Jagger preferia talvez outras substâncias um pouco mais esbranquiçadas e finas, enquanto que a restante banda, sempre rodeada de um cortejo indescritível de seguidores e apêndices, ia passando de festa em festa com gravações pelo meio.

Os lados mais rocambolescos e até chocantes estão bem documentados em livros e filmes, dos quais o documentário “Cocksucker Blues” realizado por Robert Frank, proibido durante anos pelos próprios Stones, será um dos melhores exemplos. Relata a tournée dos Stones em 1972 nos Estados Unidos, um “behind the scenes” onde o que se vê não é bonito e não se recomenda a mentes mais facilmente impressionáveis, ou dito de outra forma : “viewer discretion is advised”.

Robert Frank, que também foi autor das fotografias e composição da capa de “Exile” terá ficado marcado pela experiência, e afastou-se para sempre da mítica banda.

Mas voltemos à música que no fundo foi responsável por tudo isto.

No meio do caos ainda nascia a melodia, os temas que misturavam letra e música de forma indissociável, única, como se sempre tivesse sido assim. Incompreensivelmente, ou talvez como resultado da desorientação que reinava dentro e fora dos palcos. Os Stones começaram a gravar após Mick Taylor ter saído da banda, e  parte do álbum é resultado das audições para o novo guitarrista, Ron Wood que teve direito a aparecer na capa. Mas há todo o som funk de Billy Preston, que também é responsável por “Melody” uma grande balada de “Soft Rhythm Blues”, e pelo ritmo de “Hot Stuff” logo  a abrir ao álbum.

O fim de qualquer coisa pode ser sempre o princípio de outra. A partir daqui os Stones nunca mais seriam iguais. Era o princípio de uma outra vida para a banda, que veio a provar ter muito mais vidas do que se imaginava. E fica sempre a memória como em “Memory Hotel”, metáfora da própria banda, ou história da vida que se repete.

Sobre Bernardo Vaz Pinto

Não conseguiria nunca ser bailarino actor ou cantor sem aquela coragem segura que lhes permite não desfalecer sob os olhares escondidos de qualquer audiência. Prefiro esconder-me sob uns traços gordos de um lápis de lâmina macia, em fundo branco de papel, acarretar a velocidade lenta de uma qualquer construção que se faz colocando pedra sobre pedra. Ou passar tempo a decifrar, agora por detrás destes óculos de vidro, caligrafias de ficção e poesia, que acabam por aparar a nossa existência, e até moldá-la, abrindo portas a novos sonhos e realidades que não vislumbrávamos até à data. A música. Negra, principalmente riscada nos pântanos de new orleans, e no fumo gelado do south side de chicago. O jazz num solo de Baker, o Miles de pés e mãos marcadas pelo tempo e pelos abusos num concerto em Tokio onde a língua falada era mesmo a música. E Bach. E sempre Bach. De resto, pouco mais, entre a vontade de sonhar a vida e o sonho de vivê-la. O olhar da estrada que passou que ilumina o caminho incerto do futuro. A vontade de expelir para fora o ar que nos fica preso cá dentro.
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6 respostas a Black and Blue

  1. Manuel S. Fonseca diz:

    Um post black and blue. A mostrar uns Stones bem amados.

  2. Maria do Céu Brojo diz:

    Li, aprendi, lembrei. Thanks!

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