Como eu sei que todos viemos de África

Há um país de África que é o pai e a mãe do mundo. Mesmo do mundo. Podia estar na Europa, na Ásia, na da América. Está em África, mas o seu lugar é no mundo todo.

Refiro-me a Cabo Verde.

Todos se cruzam e cruzaram lá. É, talvez, o único lugar do planeta de onde todos somos naturais. Os brancos, os pretos, os louros, os morenos, os altos, os baixos. Isto, para mim, constitui a principal prova de que a origem do homem está África (além do Manuel Fonseca ter nascido também nesse Continente).

Em Cabo Verde sou de lá. Sou de lá na música e no baile, na venda e no restaurante, na praia e no campo, na casa dos amigos e nas ruas das cidades.

Ferro e gaita na venda da Juju

Ferro e gaita na venda da Juju

Não há outro sítio, não conheço outro local onde haja simultaneamente a alegria e a franqueza de Cabo Verde. O cumprimento – “Tudo direito? Esse corpo?” é um hino. A música é uma constante. Todos viemos de lá. Não era preciso antropologia, arqueologia, ossos da Lucy ou qualquer confirmação científica. Basta lá ir. Somos de lá, viemos de ali. Se, como se pensa, há muitos milhares de anos aqueles pedaços vulcânicos estiveram ligados a África, então sim, todos viemos de África.

 

Nem dúvidas tenho. E se ouvirem isto e perguntarem à Lua ficam sem dúvidas.  Vejam lá a letra para se emocionarem.

Bô ka ta pensâ (tu não estás a pensar)
nha kretxeu (meu amor)
Nen bô ka t’imajiâ, (nem tu estás a imaginar)
o k’lonj di bó m ten sofridu. (o quanto tenho sofrido longe de ti)
.
Perguntâ (Pergunta à)
lua na séu (lua no céu)
lua nha kompanhêra (lua minha companheira)
di solidão. (de solidão)
Lua vagabunda di ispasu (Lua, vagabunda do espaço)
ki ta konxê tud d’nha vida, (que conhece toda a minha vida)
nha disventura, (a minha desventura)
El ê k’ ta konta-bu (Ela é que te pode contar)
nha kretxeu (meu amor)
tud k’um ten sofridu (tudo o que tenho sofrido)
na ausênsia (na ausência)
y na distânsia. (e na distância)

.

Mundu, bô ten roladu ku mi (Mundo, tu tens rodado comigo)
num jogu di kabra-séga, (num jogo de cabra cega)
sempri ta persigi-m, (sempre a perseguir-me)
Pa kada volta ki mundu da (Por cada volta que o mundo dá)
el ta traze-m un dor (Ele traz uma dor)
pa m txiga más pa Déuz (para me chegar mais a Deus)

A tradução é má, é minha e aceitam, agradecem-se e aplaudem-se correções

 

Sobre Henrique Monteiro

Nunca fui um sedutor, embora amasse algumas mulheres hospitaleiras. Nunca fugi de um combate, mas sempre invejei quem, ao abrir as portas de um saloon, provoca pânico entre os bandidos. Tenho nas veias sangue jacobino, mas odeio revoluções e igualdades uniformizadoras. Sou pacato e desordeiro, anarquista institucional, maestro falhado, cantor romântico e piroso a quem falta tom. Sem nunca me levar a sério - no melhor sentido da palavra, acho que apenas sou um homem bom (e barato).
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14 respostas a Como eu sei que todos viemos de África

  1. Joaquim Taborda diz:

    O único país no mundo onde fui assaltado… E cabo-verdiano, dizia um amigo meu, tem sempre qualquer coisinha lá no fundo de vigarista.

  2. llopes49 diz:

    Seu Sentimentalão,e fica-lhe Bem.C.Verde é outro mundo.

  3. Henrique Monteiro diz:

    É mesmo outro mundo

  4. António Barreto* diz:

    Nha gentxi chama vitória, cosa galante dento nha casa, um porro vá di cama djá cá mincha cochon, ó ponche é cami qui mincha tá grogo qui mincha cama ……tápinga chap cha, tá pinga cháp cháp…

  5. Manuel S. Fonseca diz:

    Fui lá duas vezes: dei-me bem. Os cabo-verdianos são,como a Lua no espaço, uns vagabundos do oceano.

  6. mónica diz:

    já pedi a nacionalidade mas tá dificil ;)))

  7. jarra diz:

    Parece-me mais que vamos todos para lá! (em vez, de virmos …)

  8. nanovp diz:

    Ainda bem que viemos de lá e não de um ponto frio qualquer no norte do mundo!

  9. Maria do Céu Brojo diz:

    Parte do muito mundo onde nunca pus os pés. E tenho pena. E quero, assim haja «pilim»

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