Despacha-te. Só tenho mais uma hora de vida.

O meu herói, garboso como só ele, cavalgando as memórias da ultima hora da minha vida

O meu herói, garboso como só ele, cavalgando as memórias da ultima hora da minha vida

Despacha-te, só tenho mais uma hora de vida.” Dei-lhe a mão e arrastei-a, meio a contragosto, e para desespero da minha biblioteca que nunca foi em modernices, para a odisseia mais curta de toda a antiguidade. A Aurora dos Róseos Dedos estava quase a dar à luz e eu queria chegar ao abismo da minha infância antes da hora marcada. Queria reviver aquela noite de Maio que sempre sonhei vir a viver com ela.

Saímos a 100 do Minho de 70. Serranias imensas, o Lima de mil perigos escondidos, feito refúgio das imensas tardes de verão. A casa dos mil primos, pétrea, alva e prenhe de amores silenciosos que aquela parte da família vivia com uma muda elegância com que hoje já ninguém sonha vivê-los. Umas cavalitas de quem eu cá sei e o calor da mão dele nos fins-de-tarde sem fim, no cimo da escadaria de granito. As aventuras de um avô nas índias, o vinho a amaciar-se de fresco na presa, o breu mais escuro que eu já conheci.

Parámos, mais a baixo, para tomar um gole de água fresca no Ribatejo que foi o meu. Ela cansada de tanta correria, eu encasacado com um tecido grosso que tinha sido das calças de marinheiro do meu pai. Não tinha mais que meio metro mas, do alto da Chelma, égua que sempre foi tão doce como velha, eu avistava o Mundo e o que mais me aprouvesse querer sonhar que via. Ou ver que sonhava. Porque, mal caía a noite, quando a minha irmã adormecia, eu lia no imenso tecto das quatro camas, todas as fábulas alguma vez escritas por todos os escribas que tinham já sido ou haveriam de ser. Nos arabescos esquisitos que um trisavô, que para aqui não é chamado, mandou esculpir no estuque. Nos nós da madeira do soalho onde a minha mãe ensinou a minha imaginação a ser tresloucadamente livre.

Anda, faz-se tarde, e eu quero chegar a horas“. E ela, paciência infinita, ternura sem fim, guardou-me a mão enquanto atravessámos, já a correr, todos os Museus onde tínhamos sido, também nós, silenciosamente felizes. Fomos de vapor a Paris e a Chicago, de comboio a Amsterdão e a Londres, fomos a Nova Iorque e à Viena de Zweig. Fazia-se efectivamente tarde e eu sentia já no ar o cheiro acre da morte. Tal qual o tinha sentido naquele dia luminoso e gelado de um Dezembro que passou a ser todos os Dezembros e que me mudou para sempre. E ela, que sabia sempre o que o coração me dizia, deixava-se puxar naquela correria insana, sem um queixume, sem um protesto.

Faltava ainda mergulhar na água azul do canal dos verões dos meus filhos. O Pico imenso e roxo,  a zelar por nós, a olhar pelos mergulhos primeiros de cada um dos meus rapazes. O verde a fazer-se negro e, mergulhando naquele universo salgado de que só nós conhecíamos a cor, levando-me de volta aos muitos verões e aos muitos Minhos da minha própria infância. A minha meninice fundindo-se na deles. Os meus risos tímidos fazendo-se seus, as suas gargalhadas ecoando dentro do que mais há de mim.

O tempo corria, um pouco louco e aos repelões, quando chegámos, quase ao fim da noite, ao útero de onde eu parti. Empurrei a porta pesada e imensa, galgámos dois lances infinitos de mármore. Atravessámos a Amazónia que tinha sido só minha e reentrámos, mais a baixo, para a loucura babilónica que era o universo particular da minha juventude. O meu herói em cada recanto da casa imensa. Cada velho sofá poeirento, cada lareira apagada, cada inusitado trompe l’oeil, uma saudade imensa daquele tempo em que, por alguns brevíssimos instantes, o mundo deixava de girar e o amor se fazia concreto e incondicional.

Está na hora. Agora sou eu que te puxo, sou eu que te empurro, sou eu que, como sempre fiz, zelo por ti“. Um cartucho de papel pardo e uma mão cheia de milho, atravessámos a praça num ápice, mergulhámos na corrente deserta da rua e desembocámos no precipício do mundo. Ali, caso não saibam ainda, mesmo no fim do jardim de São Pedro de Alcântara.

Os outros já lá estavam. Á hora marcada. Joelhos feridos de tantas memórias, os pés baloiçando nas trevas do principio do Universo. Todos e cada um dos meus fantasmas. Os que partiram e os que por cá ficavam ainda por mais uns tempos. Sentei-me entre o meu herói e o Rapaz de veludo, a minha mão na dela, a dela na minha, fechámos os olhos e deixámos subir, lentamente, a lua de Maio.

PS: e agora, se não é pedir muito, gostava de saber das mortes da Sandra e do nosso desaparecido Ruy

Sobre Pedro Norton

Já vos confessei em tempos que tive a mais feliz de todas as infâncias. E se me disserem que isso não tem nada a ver com tristeza eu digo-vos que estão muito, mas muito, enganados. Sou forrado a nostalgia. Com umas camadas de mau feitio e uma queda para a neurose, concedo. Gosto de mortos, de saudades, de músicas que nunca foram gravadas, de livros desaparecidos e de filmes que poderiam ter sido. E de um bom silêncio de pai para filho. Não me chamem é simpático. Afino.
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8 respostas a Despacha-te. Só tenho mais uma hora de vida.

  1. Assim, de Lima, Ribatejo e Amazónia, montado na doce égua, não há cemitério que não o aceite. Ainda por cima, de mão dada…

  2. lusitana diz:

    Vale a pena viver para morrer assim

  3. Mas que belo rapaz, o seu herói – perdão, fugiu-me a boca para a verdade. E o texto faz-lhe justiça. Gostei muito.

  4. Ana diz:

    Que bom que você existe. Abraços brasileiros. Ana

  5. nanovp diz:

    Uma morte que é toda uma vida….

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