Já morri 741 vezes

 

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Não acreditam? São mortes pequenas, é certo, e por isso, todas juntas, não somam uma morte grande, a verdadeira morte. Conhecem a expressão petite mort? O copywriter que me inventou lembrou-se dela porque tinha lido recentemente “A História Íntima do Orgasmo” e foi assim que eu nasci de duas palavras, elas próprias pequenas. Para quem não saiba, petite mort é o sentimento de vazio (e tristeza?!) que invade os humanos após a satisfação do desejo sexual. O director de arte desconhecia a expressão, mas como fazer um anúncio é um trabalho a dois, apareceram-lhe logo algumas imagens interessantes diante dos olhos. Nasci neste anúncio como uma petite fille que brinca no seu quarto com a petite mort. Claro que não podia ser uma rapariga qualquer. Tinha de ser eu, parecida com a namorada do director de arte, uma parisiense sofisticada, pálida e alourada, que trabalha como designer numa agência da concorrência. Escolheram-me no casting porque mesmo quando faço uma expressão inocente pareço perversa. Vestiram-me uma camisa de noite branca, levaram-me para um quarto quase branco e sentaram-me em cima de um edredão com flores avermelhadas (as flores do mal?) para emprestar romantismo e feminilidade ao cenário. Pediram-me para segurar uma pequena foice nos dedos, a fingir que brincava com um simulacro da morte, que apenas me foi colocado nas mãos dois dias depois de tirada a fotografia, em pós-produção. Construiram uma morte tridimensional – um minúsculo esqueleto vestido de preto (como se tivesse corpo), que agora balanceia docemente na lâmina da foice e na ponta dos meus dedos. E por fim, disseram-me algo estranho: finge que és um fantasma em êxtase, que engana a vida brincando à morte. Então, compus a minha personagem. Chamo-me Alice e sou uma estudante da Sorbonne que convoca todas as noites a morte na hora mais escura e solitária. Os rapazes maçam-me e aquilo a que se convencionou chamar amor (como se o amor pudesse ser convencional) entedia-me. Tranco-me no quarto e deixo a minha mãe pensar que estou a estudar Roland Barthes e Gilles Deleuze enquanto extraio indescritíveis prazeres da minha PS2. Não sei o que vocês pensam, mas acho que apenas se devia morrer na cama, lugar onde habitualmente se nasce. Nunca ouviram dizer que em cada berço há um túmulo? E já agora, gostava de vos perguntar a vocês, que têm existência real: são mortos que vivem ou vivos que morrem? Não sabem responder? Não admira. No fundo, ninguém acredita na sua própria morte. Mas não pensem demasiado no assunto. A morte deve ser muito boa. Nunca ninguém de lá voltou. E agora, deixem-me voltar à PS2.

(texto originalmente publicado na Egoísta)

Sobre Maria João Freitas

Graças às palavras, às vezes sou Alice e faço perguntas sem parar. Outras, sou a namorada (platónica, esclareça-se) de Wittgenstein. Quase sempre, penso que tenho a sorte de viver da (e na) escrita. Porque escrever pode ser triste, mas é melhor que ser feliz.
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4 respostas a Já morri 741 vezes

  1. Será que se anda, assim, mil vezes, a morrer pequenamente, só para se preparar e depois sabermos morrer grandemente?

  2. Mario diz:

    Se depois de cada petit mort renascemos prefiro pensar que a seguir a grande morte ha um enorme renascer. Ate la, pratiquemos just-in-case 🙂

  3. nanovp diz:

    De pequena em pequena até ao Grand Finale…

  4. Luis Lopes diz:

    Gostei da Idéia e vou estar preparado para Renascer.

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