Monsieur Hulot no Pap’ Açorda

 João Bénard faria hoje 79 anos. Havia de gostar que nos lembrássemos dele a rir.

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Esta é uma gargalhada à João. Santana Lopes e o meu jovem bigode vão atrás.

Não há maior distracção do que a de Deus a criar o mundo. Deus é uma espécie de Peter Sellers, e o mundo, como bem sabemos, não é diferente do “The Party”, de Blake Edwards. Mas João Bénard, mítico director da Cinemateca e quem primeiro levou a vetusta Gulbenkian a ver um filme, era tudo menos um Peter Sellers. As hiperbólicas distracções dele estavam entre o Cary Grant de “Bringing up Baby” e o Jacques Tati de “Les Vacances de M. Hulot”.

O Pap’Açorda já entrara no século XXI e conservava a mesma gloriosa mousse de chocolate do século XX. A uma mesa, sentavam-se o João Bénard e o marginalíssimo realizador alemão Werner Schroeter. Os dois de costas para a entrada, e via-se que esperavam alguém. A vigiar a porta, um colaborador a quem o João pediu para o avisar mal entrasse Isabelle Huppert.

Era por ela, a filmar em Lisboa, que esperavam. Quando a ansiedade é muita, antecipa-se o que se deseja ver e o colaborador disse ao João: “É ela.” O João deu um salto à João, perdão, à Monsieur Hulot, e correu, como Cary Grant, para a porta. Já não ouviu o colaborador aos gritos “Ah, não é, desculpe, não é ela.

Isabelle”, dizia o João à senhora a quem beijava as mãos, “mais quelle honneur…” Surpreendida, tão honrada como embaraçada, a senhora, num límpido português pré-acordo ortográfico, só respondia: “Ó João, mas o que é que lhe deu?” Inabalável, sem saber que estava a protagonizar uma das suas mais lendárias gaffes, o João Bénard continuou a elogiar a imaginária Huppert: “Et en plus vous parlez portugais!” Era, aliás, a única coisa que a senhora falava: “Que disparate, João, porque é que não havia de falar português!

O João Bénard percebeu, então, que a senhora era uma velha amiga, apesar de, por tanto ter a Huppert na cabeça, nem do nome dela se conseguir lembrar. Embrulhou-se em desculpas e voltou para a mesa com um homérico ataque de riso.

Era o João a estranhar, entre gargalhadas convulsas, não conseguir lembrar-se do nome da amiga, e era o Schroeter a avisá-lo: “Não diga à Isabelle Huppert que a confundiu com uma mulher que deve ter mais vinte anos do que ela. Acabaríamos em tragédia o que agora começou em comédia.” E a Huppert nunca soube o quanto Monsieur Hulot se riu antes de ela chegar.

Publicado sábado, dia 1 de Fevereiro, no Expresso

Sobre Manuel S. Fonseca

O meu maior medo é que a morte seja tudo às escuras sem se poder ler. Pouco interessa deixar de ser humano, desde que não deixe de ser leitor. Ler é do mais feliz que tenho. Até porque escrever é triste.
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11 respostas a Monsieur Hulot no Pap’ Açorda

  1. Vasco diz:

    Manel, texto e episódio que de tão deliciosos batem largamente aos pontos a gloriosa mousse de chocolate do Papa’Açorda… Abraço

  2. Este texto devia ir já para uma moldura numa das paredes do Pap´Açorda.

  3. António Ferrão diz:

    Bom dia, Manuel. Começar o dia com uma sonora gargalhada, que mais posso querer. História deliciosa. E, sim, uma moldura em local de destaque no “Papa Açorda”, já!

  4. Muito bom! Guardem a mousse, prefiro o texto.

    • Manuel S. Fonseca diz:

      Não anda a cortar nos doces, pios não, menina Eugénia? Thanks pelo apoio a este cozinheiro.

  5. juan diz:

    JBC a arte de contar histórias.
    “Les Vacan­ces de M. Hulot” com o Charlei Chaplin francês, Tati. Oooh lá lá!
    Mas estes seus episódios são deliciosos em qualquer bom restaurante!

    • Manuel S. Fonseca diz:

      Juan, o João Bénard tinha essa virtude de dar um toque de grandeza a tudo. A começar pela alegria.

  6. riVta diz:

    história engraçada
    😀

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