O Papa é Pop (*)

O Papa é Pop

O Papa é Pop

Não sou, nem nunca fui, politicamente conservador. Não sou, mas já fui (na medida em que se é o que quer que seja só porque alguém nos manda ser), católico. Mas isso não me impede de pensar desapaixonadamente na Igreja enquanto instituição social e política, com tudo o que tem de profundamente admirável e de mais sinistramente negro. Não deixo, por exemplo, de espantar-me  com a resiliência e a espantosa longevidade da instituição. E tenho uma teoria, que obviamente só a mim compromete, sobre a coisa: a chave da resistência milenar da Igreja é o seu conservadorismo endémico. A Igreja anda, sempre andou, atrás dos tempos, longe da espuma dos dias, num tempo de reflexão e mudança que, por ser tão distante, tão lento e só seu, a tem protegido dos ciclos de ascensões e quedas, de todos os outros poderes políticos. Move-se, é certo, mas tão lentamente, que para todos os efeitos quase permanece imóvel à escala temporal de uma qualquer geração. É isso que exaspera, é isso que  desespera, os mais progressistas dos seus fiéis. Mas é esse  quase imobilismo milenar, essa cautela irritante, esse conservadorismo incompreendido, essa resistência aparentemente absurda à mudança que, à escala dos dois últimos milénios,  a mantém viva, pujante e poderosa como instituição política.

Repare-se que não estou a fazer a advocacia da prática, não estou a sinalizar nenhuma simpatia conservadora que, repito, não tenho. Muito menos me aventuro por terrenos teológicos que não saberia percorrer. Limito-me a ensaiar uma explicação analítica para a longevidade do poder político e social da instituição. A igreja é conservadora porque pensa e projecta o seu poder político numa escala temporal muito diferente de qualquer outra instituição política. Tem, ao contrário, de todas as outras, todo o tempo do Mundo para debater, discutir, pensar, ensaiar e executar qualquer milimétrico avanço ou recuo.

É à luz desta leitura política, discutível como qualquer outra, que me atrevo a dizer que a súbita e planetária popularidade do Papa Francisco constitui, para a Igreja, um desafio muito mais sério do que se possa pensar. O Papa é pop. Se dúvidas existissem, a beatificação decretada por essa bíblia do pop rock que é a Rolling Stone, deve tê-las dissipado. E a teoria nem é nova. A afirmação já tinha sido feita, por volta de 1990, então a propósito de João Paulo II, no título de uma faixa famosa dos brasileiros Engenheiros do Hawaii. Ora o pop, senão é o pólo oposto do conservadorismo, não anda longe dessas paragens. Transporta consigo uma imagem e, mais relevante, uma promessa implícita, de mudança progressista, de revolução permanente que explica aliás o seu fascínio. Mas que, é bom de ver, o inegavelmente simpático Papa Francisco nunca cumprirá. Duvido aliás que a essência da mensagem de Francisco possa ser tão diferente da de Bento XVI ao ponto  justificar que o Mundo católico passe subitamente da neurose à euforia. Mas reconheço que aqui me aventuro para terrenos que a minha ignorância não aconselharia a trilhar. E se o faço é porque suspeito que a minha ignorância não é maior do que a das multidões que, um pouco por todo Mundo, têm recebido o Papa com um contagiante entusiasmo. Ou acreditam que em cada um daqueles fãs há um dedicadíssimo estudioso de encíclicas?

Eram os tais Engenheiros do Hawaii que diziam também, na letra da já citada faixa, que o Papa é Pop. O pop não poupa ninguém. Tá na cara. Tá na capa da revista. É essa a dimensão do desafio. Ou o a Igreja de Francisco está à beira de uma das maiores revoluções da sua história, com imprevisíveis consequências para uma instituição que sempre fez da lentíssima evolução o segredo do seu sucesso. Ou o Papa Pop vai desiludir boa parte dos que nela (na revolução) acreditam.

A primeira opção é, para cabeças mais liberais, potencialmente atraente mas, digo eu, altamente improvável. A segunda, a via da desilusão, tem consequências que não sei antever. O Papa é pop mas mas isso deixa-o num complicado labirinto.

(*) Versão muda, aumentada e publicada na Visão em 6.2.2014

Sobre Pedro Norton

Já vos confessei em tempos que tive a mais feliz de todas as infâncias. E se me disserem que isso não tem nada a ver com tristeza eu digo-vos que estão muito, mas muito, enganados. Sou forrado a nostalgia. Com umas camadas de mau feitio e uma queda para a neurose, concedo. Gosto de mortos, de saudades, de músicas que nunca foram gravadas, de livros desaparecidos e de filmes que poderiam ter sido. E de um bom silêncio de pai para filho. Não me chamem é simpático. Afino.
Esta entrada foi publicada em Post livre. ligação permanente.

4 respostas a O Papa é Pop (*)

  1. JP Guimarães diz:

    Pedro, a este respeito talvez te interesse ler o artigo da Spectator sobre o Papa: http://www.spectator.co.uk/features/9112081/the-fantasy-francis/
    Aí se pode ler, logo a abrir, que “Trendy commentators have fallen in love with a pope of their own invention”…
    Um abraço, JP

  2. Talvez a mensagem de Bento XVI fosse mais revolucionária, mas aos Papas, como às mulheres de César, não basta sê-lo, é preciso parecê-lo.

  3. riVta diz:

    no canto superior direito lê-se «the rise and fall of silk road»
    😀

  4. nanovp diz:

    Tudo o resto parece mudar, mas no fundo a essência da humanidade mantém-se, e o que é o conservadorismo? Quantas filosofias e doutrinas sociais “reaccionárias” e “liberais” afinal passaram como pó…como no caso de Bento XVI , as opiniões formadas parecem ficar-se pelo “símbolo”, pela “imagem”, pela postura “pop” do Papa…Se a Igreja mudasse com o “zeitgeist ” seria infinitamente mais pobre e indiferente…

Os comentários estão fechados.