O Pêndulo das Mulheres

 

Claudio Bravo

Claudio Bravo

«A identidade, o clube e um emprego para a vida eram os vestígios da tradição conservadora, hoje desmantelada e substituída pela precariedade – dos afetos, dos compromissos, dos projetos, da vontade, dos ideais.»

O ser e o clube é o que permanecerá intocado para a metade XY da humanidade. No genoma da fração marialva, está escrito: “muda de fé, de carro e de mulher, nunca de clube!” E assim é com acentuada relutância para o automóvel e maior displicência para a mulher.

As mulheres são pendulares – mudam bem de quase tudo, exceto de marca de fond de teint. Por princípio, rendem-se ao que é novo e mais sedutor. O clube depende. Iniciam-se nas lides por via do clube paterno. Sendo o pai castrador, mudam-se para o inimigo figadal que reúna maior consenso no «grupo». Já adultas, o percurso clubístico depende da meteorologia amorosa – amor em alta e o clube dele é o máximo, nublado e “que se lixe!” andam a par, tempestuoso é o mesmo que dormir com o inimigo.

As fiéis a um clube diferente daquele que anima o parceiro fazem-no, normalmente, como tributo a um outro amor: o pai, o irmão, o primeiro namorado, um amante. Sendo românticas, ficarão tão apegadas ao Nuno Gomes e à águia como à memória do perfume que ele usava. A qualquer deles reservarão suspiro mascavado. As dadas à multiplicidade na cama, em vez de datar ou nomear factos e amores, dirão com um sorriso enigmático: “Ah! Isso foi quando eu era da Académica.”

Nota: publicado a 14 de Agosto de 2008 em http://sempenisneminveja.blogs.sapo.pt/751872.html

Sobre Maria do Céu Brojo

No tempo das amoras rubras amadurecidas pelo estio, no granito sombreado pelos pinheiros, nuas de flores as giestas, sentada numa penedia, a miúda, em férias, lia. Alegre pelo silêncio e liberdade. No regresso ao abrigo vetusto, tristemente escrevia ou desenhava. Da alma, desbravava as janelas. Algumas faziam-se rogadas ao abrir dos pinchos; essas perseguia. Porque a intrigavam, desistir era verbo que não conjugava. Um toque, outro e muitos no crescer talvez oleassem dobradiças, os pinchos e, mais cedo do que tarde, delas fantasiava as escâncaras onde se debruçaria. Já mulher, das janelas ainda algumas restam com tranca obstinada. E, tristemente, escreve. E desenha e pinta. Nas teclas e nas telas, o óleo do tempo e dos pinceis debita cores improváveis sem que a mulher conjugue o verbo desistir. Respira o colorido das giestas, o aroma dos pinheiros nas letras desenhadas no branco, saboreia amoras colhidas nos silvedos, ilumina-a o brilho da mica encastoada no granito das penedias.
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14 respostas a O Pêndulo das Mulheres

  1. António Barreto* diz:

    Afinal de contas vamos lá a saber; qual é o seu clube?, já agora; António Brojo, diz-lhe alguma coisa?

    • Maria do Céu Brojo diz:

      1ª parte – atualmente, a minha simpatia vai direita para o Benfica. Não esqueço. porém, a Académica. Isto de ter vivido em Coimbra desde a infância até à juventude, tem a responsabilidade
      2ª parte – o António Pinho Brojo, um dos expoentes do fado de Coimbra, é meu primo. Em tempo de férias, dinamizador de tertúlias literárias, cinéfilas, musicais em casa do meu avô, também ele músico e compositor com o mesmo apelido. A Amália honrou-o interpretando um tema dele.

      • António Barreto* diz:

        Ah! além do benfas, também simpatizo com a Académica – para ser franco, a de outros tempos (foram meus adversários em miúdo).
        António Brojo é uma referência da música coimbrã e nacional; do maravilhoso fado de Coimbra que, infelizmente, está em decadência, tal como a Trova, do Adriano e do Góis. Ele também honrou Amália. Parabéns.

        Certo dia, em Cape Town, encantei-me por uma viola de 12 cordas que ainda tenho. Não resisti; entrei peguei-lhe, dei-lhe uma coçadela mal ageitada e logo diz o logista; – very good!, logo que percebeu que era português perguntou-me se conhecia a música de Coimbra: – very beautifull, disse. Foi então que percebi, com surpresa, que a música coimbrã tinha dimensão internacional, algo que nunca me teria passado pela cabeça. Porque não promover um concurso anual de originais da música de Coimbra?, derrete-se dinheiro em tanta porcaria!

        • Maria do Céu Brojo diz:

          História para recordar também por mim. Entre os grandes da música coimbrã cito o António Portugal, de Farmácia como o meu primo. Nas férias, imagina-os e ao meu avô mais trupe que não menciono um a um deliberadamente, com um burro* carregando paparoca e os instrumentos musicais até ao cimo do Cântaro Magro na Serra da Estrela? Se difícil subir, pior a descida. Mas em pleno Agosto, bem no cume, tocaram e cantaram e beberam e comeram toda a noite. Ainda agora as famílias se perguntam como chegaram à base.
          E é louvável a sua sugestão de concurso original da música de Coimbra. Mas continua viva e renova-se com ou sem concurso. Pena é tão poucos a conhecerem.
          * Por favor entenda trupe como regionalismo coimbrão.

          • Maria do Céu Brojo diz:

            E cá está o Brojo mais o seu eterno companheiro António Portugal.

          • Maria do Céu Brojo diz:

            Nota – afirmei o meu avô honrado por Amália visto ter sido ela a descobri-lo e não o contrário, como é evidente.

          • António Barreto* diz:

            Bonito!, Ui, António Portugal; a quem, todos, os amantes da música e de Portugal, muito devemos.

          • Maria do Céu Brojo diz:

            A trupe reunida na casa dos avós envolveu amores, serenatas e entradas na vida religiosa, salvamento do Raul Solnado metido em neve até ao tejadilho, o Tony de Matos que entrava lindamente no espírito da «coisa», o Giacometti amigo do peito do meu avô.

  2. Depois um dia, quando tiver um minutinho lindo, há-de explicar o significado do significante “emprego”, sim?

    • Maria do Céu Brojo diz:

      1ª parte – Antes de mais pedido de desculpas por ter publicado o texto em cima do seu que, pela magnificência e dia do “Está Escrito”, não merecia tal. Impetuosa, lembrei-me desta «ossada» e fui em frente. Já o mal feito, reparei na desfeita.
      2ª parte – o significado de emprego «vareia». Em idos e nas famílias humildes, era destino, tarefa para a vida e fonte de rendimento; herdada da família ou conseguida a duras penas. Nas Beiras e em quase todo o país, raro o divórcio entre empregado e patrão, salvo por despedimento ou emigração. Nesses tempos, ter emprego e trabalho dava quase no mesmo. Hoje, falta o emprego mas há trabalho. Empregos muitos desejam, entrega laboral a sério raros a procuram ou têm a sorte de coincidir com dedicação/paixão.

  3. Brito da Selva diz:

    Ah! Isso recorda-lhe casos de convívio, talvez em repúblicas? 😉

    • Maria do Céu Brojo diz:

      Ai que linda oferta! Obrigada. Porém, a verdade é que nunca frequentei as repúblicas por interdição familiar – fui para a faculdade com 17 anos por fazer e, portanto, muito, mas muito parva. Já do segundo ano em diante, mandei às malvas a proibição da frequentar a Associação Académica. Tempos de mudança portuguesa que não esqueço. Das chaimites e das cargas policiais tenho memórias mas ainda frequentava o liceu.

  4. Bruto da Silva diz:

    uma alternativa ao verdadeiro sentido de orientação? 😉

  5. Maria do Céu Brojo diz:

    Linda e boa intenção que agradeço! Porém, já fui do FCP, do Sporting, do Vitória de Setúbal, do Belenenses. Do Trofense sei que não. C’est la vie!

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